Mesmo sem poder me ver, soube que empalideci. Senti todo o meu sangue simplesmente evaporar e meu coração congelar simultaneamente. Minha expressão estava totalmente chocada, perplexa, apavorada. O mau pressentimento estava explicado.
- Ah… É? – gaguejei, tentando não parecer tão horrorizada quanto eu realmente estava – E c-como ele tá?
Mica pareceu não notar minha agonia e continuou sorrindo de um jeito divertido ao responder:
- Melhor do que nós, pode apostar. Ele não se machucou muito, apenas bateu a cabeça com força no volante enquanto tentava frear e ficou desacordado por alguns minutos. Acabei de voltar do hospital onde ele está em observação, falei com o médico e com o próprio Aguiar, e ele me disse que amanhã mesmo poderá voltar a dar aulas.
A imagem de Arthur batendo com o carro surgiu em minha mente sem esforço, seguida pela cena de vários paramédicos imobilizando-o na maca enquanto ainda estava desacordado. Um desespero enorme subiu pela minha garganta, fazendo lágrimas se formarem em meus olhos, mas eu fiz o máximo de força pra contê-las, pelo menos enquanto estava na frente de Mica.
- Eu… Tenho que ir… Me lembrei de que tenho uma prova agora – foi tudo que consegui gaguejar, me afastando dele devagar e evitando seus olhos – Depois a gente se vê.
Abri a porta da sala de aula, deixando Mica totalmente confuso, e subi correndo as escadas, já mais vazias, até o meu andar. Mal conseguindo conter as lágrimas e com as pernas perigosamente trêmulas, me enfiei num dos cubículos do banheiro feminino, e só depois de trancada e sentada no vaso sanitário fechado, finalmente caí num choro inexplicável.
Tudo que eu conseguia sentir era culpa. Nojo de mim mesma, repulsa, remorso, um peso imenso me impedia de respirar, me afundando cada vez mais num choro que parecia não ter fim. Sufocando meus soluços com as mãos cobrindo a boca, eu sentia meu rosto lavado de lágrimas esquentar à medida que o ar me faltava, mas não encontrava força pra respirar.
Quando pensei que fosse desmaiar por falta de oxigênio, meus pulmões entraram no modo de emergência, puxando o ar pra dentro de si em inúmeras inspirações rápidas. Meus olhos não paravam de liberar lágrimas, e meu nariz começava a ficar congestionado, mas eu não me importava. As imagens daquele sábado vieram imediatamente à tona: minhas palavras rudes, o olhar furioso de Arthur, seus dedos apertando o volante com força, trêmulos de ódio, sua arrancada bruta quando foi embora… Tudo estava muito claro. Todos os pensamentos que ocupavam minha mente se resumiam a uma única frase, que meu cérebro insistia em repetir sem parar.
Se Arthur estava numa cama de hospital nesse exato momento, por melhor que fosse seu estado, era culpa minha.
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