segunda-feira, 15 de outubro de 2012

Capitulo 33 parte 1-O amor e o Ódio

Respire. 
Mantenha a calma. 
Pense. 
Tudo vai dar certo. 
Agora… Hora de reagir. 
Voltei a fixar meus olhos na diretora, e entrei na sala, fechando a porta atrás de mim. Caminhei rapidamente até a cadeira vazia, que graças a Deus, ficava na ponta, ao lado da de Thur. Pelo menos eu não precisaria ficar perto de Mica, muito menos de Maria. 
- Imagino que saibam por que estamos aqui, certo? – a diretora Scott disse, olhando para mim e para Thur, que assentiu – Não deve ser surpresa para nenhum dos dois o fato de que o professor Borges fez algumas acusações a seu respeito, então. 
Engoli em seco, vendo-a nos encarar incisivamente. Um silêncio tenso caiu sobre nós, até que Thur o quebrou. 
-Ainda assim, eu gostaria de ouvir o que o professor Borges tem a dizer – ele falou, extremamente sério, e ela ergueu uma sobrancelha, como se achasse seu pedido uma perda de tempo – Receber uma punição sem ouvir as acusações seria o mesmo que assinar um contrato sem lê-lo. 
Após alguns segundos de reflexão, a diretora pareceu convencer-se. 
- Por favor, professor Borges, repita o que me disse há pouco – ela assentiu, voltando seu olhar para Mica, assim como todos nós. Ele me lançou um rápido olhar antes de começar a falar, e eu me senti estranhamente enjoada. 
Talvez prevendo o que viria. 
- Eu fui ameaçado. 
Franzi a testa, sem me recordar do momento em que tal fato havia acontecido. Talvez porque ele 
não tenha acontecido. 
- Ela sempre teve essa obsessão por mim, desde que comecei a dar aulas para a sua turma – Mica prosseguiu, e eu senti que precisaria de muito esforço para que meu café-da-manhã, ainda sendo digerido em meu estômago, não fosse parar sobre a mesa da diretora – Eu sempre tentei evitar qualquer tipo de aproximação desnecessária, até o dia em que ela se cansou de meu comportamento profissional e ameaçou me acusar de abuso sexual se eu não aceitasse um relacionamento íntimo. 
Meu rosto estava congelado numa expressão incrédula, ultrajada e revoltada. Eu só podia estar delirando… Não havia outra explicação plausível. 
- Eu preciso do emprego, não tenho a vida ganha – ele continuou, com a expressão inocente, e minhas mãos se fecharam em punhos em torno dos apoios laterais da cadeira – Por isso, temendo que ela realmente me denunciasse, eu aceitei sua condição, mas sempre pensando numa forma de fazê-la voltar atrás e retirar sua ameaça. Felizmente, após algum tempo, convencida de que eu jamais poderia retribuir seus sentimentos, ela me libertou de sua chantagem. Infelizmente, porém, seu foco desviou-se para outro professor. 
- No caso, o professor Aguiar – a diretora disse, e Mica assentiu. Meus olhar estava inconscientemente cravado nele durante todo o seu falso depoimento, e eu não me surpreenderia nem um pouco se ele e Maria começassem a pegar fogo dali a alguns segundos devido ao meu ódio. Olhei rapidamente para Thur, vendo-o encarar a mesa com o rosto isento de expressão. 
Ele já esperava truques baratos como aquele. Eu também já. Mas não tão baratos como simplesmente jogar toda a culpa para cima de mim. E ainda por cima, trazer Maria, cuja presença eu ainda não entendia. 
- Não foi muito difícil para ela fazê-lo corresponder seus sentimentos, já que seu histórico entre as alunas do colégio sempre foi bastante comentado – ouvi Mica falar, e decidi adotar a tática de Thur e não olhar mais para ninguém; mantive meus olhos baixos e o maxilar trancado, recusando-me a assistir àquele momento deplorável - E honestamente, diretora, eu não creio que seja esse o tipo de profissional que uma instituição de ensino tão renomada queira ter em seu corpo docente. Além do fato de que a srta. Messi claramente necessita de suporte psiquiátrico, afinal, ninguém em seu perfeito estado mental faria o que ela fez. 
Vai pro inferno, desgraçado, minha consciência dizia, e eu respirei fundo para não externar as palavras. Virei meu rosto na direção oposta à de Mica e todos os outros presentes, sentindo meu corpo inteiro queimar de ódio. Filho de uma senhora puta. 
- O que os senhores têm a dizer? – Maggie perguntou alguns segundos depois, e nem precisei olhá-la para saber que se referia a mim e a Thur. Ele suspirou, preparando-se para falar, porém as palavras simplesmente irromperam de minha boca, sem que eu sequer me desse conta de que elas estavam subindo por minha garganta. 
- Se eu dissesse que é tudo mentira e que quem precisa de suporte psiquiátrico é ele, a senhora acreditaria em mim? 
A diretora piscou algumas vezes, surpresa com a minha resposta rápida, e eu a encarei com determinação. Se ele achava que conseguiria nos afundar sem que eu lutasse contra isso, estava muito enganado. Ele podia ter sua determinação, mas ela nem se comparava à minha. 
Eu tinha por quem lutar. Ele só tinha a si mesmo. 
- Acreditaria – ela disse, devolvendo meu olhar determinado com firmeza – Se fosse apenas a sua palavra contra a do sr. Borges. O que não é o caso. 
Cerrei levemente meus olhos, sem entender, e foi então que uma quinta voz finalmente se pronunciou, explicando o motivo de sua presença. 
- Eu vi o professor Aguiar e a Messi se beijando no laboratório de biologia – Maria mentiu, me lançando um olhar de censura. Fechei meus olhos por um breve momento, soltando um risinho descrente, e voltei a baixar meu olhar. 
Sério mesmo, Smithers? 
- Há uma testemunha contra vocês – a diretora observou, entrelaçando seus dedos por sobre a mesa – E isso não pode ser ignorado. 
- É mentira – Thur se pronunciou, sem perder a inexpressividade, porém com muita certeza do que dizia – Nós nunca fizemos nada nos laboratórios. Mesmo que ela seja uma suposta testemunha, é a minha palavra contra a dela. 
- Ah, é? E você tem como provar que seu argumento é verdadeiro? – Maria perguntou, esquecendo-se de comportar-se educadamente. 
- Você tem como provar que o 
seu é? – rebati, encarando-a com desprezo e destruindo sua autoridade num segundo. Thur não estava sendo totalmente sincero, mas nunca havíamos sido flagrados no laboratório, sempre nos precavíamos. Aquele testemunho era absolutamente inconcebível. 
- Com licença, diretora Scott – ouvi uma voz masculina dizer da porta, e todos nos viramos para ver o inspetor – Desculpe interromper. 
- Tudo bem – ela bufou, incomodada com a intervenção – O que houve? 
- A mãe de uma aluna acabou de ligar para a secretaria – ele explicou, e eu franzi a testa ao ver duas cabecinhas familiares por sobre seu ombro – Ela disse que está vindo para o colégio falar com a senhora. 
Prestei pouca atenção em suas palavras, mais concentrada em saber o que raios Sophia fazia do lado de fora da secretaria, acenando discretamente para mim e acompanhada de Amy Houston. Totalmente confusa, olhei rapidamente para Thur, que ostentava a mesma expressão perdida que eu. 
- Esta manhã eu não posso atender mais ninguém – a diretora falou, balançando negativamente a cabeça – Peça a ela para vir amanhã. 
- Com licença, diretora – Sophia chamou da porta, e o inspetor pareceu irritado com a intromissão – A mãe que está vindo é a dela. 
Arregalei os olhos ao vê-la me indicar com um aceno de cabeça, e olhei novamente para Thur, recebendo um olhar surpreso de volta. Pelo visto, ele não sabia muito mais do que eu, e isso me confortava de certa forma. 
- A sra. Messi? – Maggie perguntou, e logo após ver Sophia assentir, ela dirigiu seu olhar para mim – Ela sabe de tudo isso? 
- Ela sabe a verdade – corrigi, encarando a diretora com firmeza – E 
tudo isso não é a verdade. 
- Ela não é a única – novamente Sophia disse, olhando com certa indignação para o inspetor que bloqueava a porta, e logo em seguida invadindo a sala com Amy em seu encalço – Eu e a srta. Houston também sabemos. 
Olhei para Sophia, em pânico, e a vi esboçar um sorriso satisfeito. Com toda a certeza do mundo, eu havia perdido algo. 
- Pois não, senhoritas – a diretora Scott assentiu após alguns segundos de hesitação, e dispensou o inspetor com um aceno de mão – Sou toda ouvidos. 
- Se incomoda em começar? – Sophia perguntou, virando seu rosto para Amy, assim como todos os outros presentes. Notando que era o centro das atenções, ela respirou fundo antes de falar. 
- Eu ouvi uma conversa entre os dois há alguns meses… Numa sala vazia – ela começou, parecendo tímida, porém bastante certa do que dizia – Eu saí da sala para ir à enfermaria tomar um comprimido para dor de cabeça, e assim que apareci no corredor, vi o professor Borges puxando Roberta pela mão para uma sala perto dos banheiros. Fiquei curiosa e me aproximei para ouvir a conversa deles por trás da porta, e só consegui escutar alguns pedaços. E bem… Eu ouvi claramente o professor Borges dizer que queria beijá-la. 
- Eu não admito que uma aluna faça uma acusação dessas sem poder provar! – Mica exclamou, exaltado, e a diretora ergueu uma mão, ordenando que ele se acalmasse. 
- Ninguém aqui tem provas concretas, professor – ela esclareceu, olhando para Amy em seguida – A senhorita tem certeza do que disse? 
- Absoluta – Amy confirmou, e só então eu me dei conta de que mal respirara desde que ela começara a falar. Se eu não estava enganada, aquele momento ocorrera no dia seguinte ao nosso primeiro beijo. Como fomos tão descuidados a ponto de permitir que alguém nos visse e ouvisse? 
Minha mente mergulhou em questionamentos, mas parte dela manteve-se atenta a tudo que acontecia à minha volta. A diretora assentiu, respirando fundo, e olhou para Sophia. 
- E a senhorita… O que tem a dizer? 
- Será que eu posso me sentar? – ela perguntou, fazendo uma caretinha, e eu quase ri da forma confiante através da qual ela lidava com a situação – A história é um pouco longa, e eu faço questão de ser bem detalhista. 
- Eu vou buscar duas cadeiras em alguma sala vazia – Thur se ofereceu, levantando-se antes mesmo que a diretora se pronunciasse, e todos se mantiveram quietos até que ele retornasse. 
- Muito obrigado, professor, o senhor é muito gentil – Sophia agradeceu enquanto ela e Amy se acomodavam, sorrindo para Thur e logo em seguida lançando um rápido olhar de desprezo para Mica – Agora eu posso contar tudo. Hm… Por onde começo? 
Quinze minutos se passaram, durante os quais a voz de Sophia fora praticamente soberana na sala. Apenas a diretora fazia algumas perguntas, que eram muito bem respondidas, enquanto o resto dos presentes, incluindo eu, ouvia em silêncio. Observei o rosto de Mica, já um pouco nervoso diante de todo o relato verídico e convincente de Sophia, e meu coração acelerou. Desviei os olhos para Thur, que olhava atentamente de Sophia para a diretora, e então olhei para Amy, cochilando sobre o próprio ombro. Típico. 
- Com licença, diretora Scott – o mesmo inspetor interrompeu, e todos nós o olhamos – A sra. Messi acabou de chegar. 
- Peça-a para entrar, por favor – Maggie pediu, e meu coração quase parou ao ver minha mãe entrando, poucos segundos depois, na pequena sala já tão cheia de gente. 
- Bom dia, diretora – ela sorriu, sem o menor sinal de nervosismo ou raiva, e logo em seguida olhou para Thur – Olá, querido. Como vai? 
- Bem, e a senhora? – ele disse imediatamente, sorrindo de maneira amigável, e ela assentiu, respondendo-o. 
Espera um pouco aí. 
O que diabos eu havia perdido afinal? Eu tinha ficado desacordada por algumas semanas? Desde quando minha mãe conhecia Thur? 
- Bom dia, sra. Messi – a diretora cumprimentou, alguns segundos depois, parecendo tão pega de surpresa com a simpatia entre os dois quanto eu e Mica, que mal conseguia disfarçar sua indignação – Por favor, sente-se. 
- Fique à vontade – Thur adiantou-se, ficando de pé e fazendo um gesto para que minha mãe ocupasse o seu lugar. 
- Muito obrigada – mamãe falou, obedecendo-o e dando um breve sorriso para mim enquanto Thur parava atrás de minha cadeira e apoiava suas mãos no encosto dela. Apenas pisquei, olhando para Sophia e vendo-a prender um sorrisinho. A voz da diretora me trouxe de volta à realidade, e eu me concentrei para guardar minhas dúvidas e prestar atenção nela. 
- Pois bem… A que devo sua presença? 
- Primeiramente, eu trouxe alguns bilhetes que encontrei no criado-mudo de minha filha – ela começou, mexendo em sua bolsa e retirando alguns pedaços de papel dobrado dela, logo depois colocando-os sobre a mesa - São bilhetes do professor Borges, pelo que pude perceber. E se a senhora ler qualquer um desses, terá como se certificar de que a caligrafia é dele. 
Encarei os bilhetes sobre a mesa, totalmente perplexa. Como minha mãe os havia descoberto? Tentando encontrar uma resposta racional, apenas observei a diretora abrir um deles e lê-lo em voz alta: 
Tenho uma surpresa pra você nesse fim de semana. Pode ir se preparando, vou te seqüestrar de sexta a domingo! Te amo. 

Eu ainda me lembrava desse. Ele havia me dado antes de irmos à casa de praia. Olhei rapidamente para Mica, e por um segundo o choque e o pânico percorreram seu rosto. 
- Isso não prova nada – ele protestou, sem se deixar abater pela súbita prova contra si – Quem garante que eu os escrevi, mesmo se a caligrafia for minha? Esses bilhetes podem ter sido forjados! E mesmo que eu os tivesse escrito, quem prova que foram para ela? 
A diretora não reagiu, apenas analisou os outros bilhetes em silêncio. Lancei um rápido olhar a Sophia, que piscou para mim, e senti uma ansiedade enorme me preencher. Tinha dedo dela naquilo, sem dúvida. 
- O senhor tem como confirmar que não são seus? – Maggie perguntou a Mica, imparcial, e ele simplesmente se manteve imóvel, sem a capacidade de responder – Então eles são até que possa provar o contrário. 
- Eu vim para colocar um ponto final nessa história – mamãe disse, objetiva e cordial – Todos já estamos muito bem informados sobre as várias versões dos fatos, e meu posicionamento quanto a elas é mais do que nítido. Portanto, agora a decisão está em suas mãos, Scott. Que medidas serão tomadas? 
- O colégio tem regras, sra. Messi – Maggie suspirou, recostando-se em sua cadeira – Diante dos fatos apresentados, preciso acatar à que melhor enquadrar os acontecimentos. 
- Que seja… Minha filha não será prejudicada, tenho certeza disso – minha mãe sorriu, como se agradecesse por uma xícara de chá, e todos na sala pareceram impressionados com a sutil, porém intensa persuasão em sua voz – A senhora é uma profissional muito prudente, saberá como punir as pessoas certas. 
- Concordo plenamente – Mica sorriu, sem se desfazer de sua pretensão apesar de praticamente encurralado, e mal completou sua frase, recebeu uma belíssima resposta de mamãe: 
- Quando eu disse 
pessoas certas, estava me referindo a você. 

- Por favor, sem ofensas – a diretora pediu, levando as pontas dos dedos às têmporas – Alguém mais tem algo a dizer? 
Ninguém se pronunciou, e após um suspiro, ela prosseguiu:

- Bom, se não há mais nada a ser dito, peço a todos que se retirem. Ainda vou precisar de algumas informações e de alguns dias para analisá-las e tomar a decisão mais apropriada. Voltarei a entrar em contato em breve. Enquanto isso, uma coisa fica estabelecida:
 Aguiar, você está afastado do corpo docente por tempo indeterminado. 
- Por que só ele? – perguntei, franzindo a testa enquanto todos se levantavam.

- O professor
 Borges pediu demissão antes de fazer suas acusações – a diretora esclareceu, e eu me senti burra por não ter deduzido aquilo - E quanto à senhorita… Considere-se dispensada das aulas hoje. Amanhã conversaremos mais. 
Todos assentimos, e nos retiramos da sala rapidamente.

- A senhora foi brilhante! –
 Sophia sussurrou em êxtase assim que fechei a porta da diretoria atrás de mim, batendo palminhas para minha mãe, que sorria de leve para ela – Botou todo mundo no chinelo! 
- Minha filha não fez nada que possa ser julgado errado pelas regras da escola - a ouvi dizer, alto o bastante para que
 Mica e Maria, já a alguns passos de distância, também a escutassem – Estou com a consciência tranqüila. 
- Seja como for, ela é uma vadia –
 Mica cuspiu, encarando-a com raiva - Meus parabéns. 
- E você é um broxa que não deu conta dela e a obrigou a procurar quem desse –
 Thur sorriu cinicamente, sem conseguir se conter, e Sophia caiu no riso. Mica não respondeu, talvez para não se deixar tirar do sério, enquanto Maria tentava acalmá-lo e nos olhava com desprezo conforme os dois desciam as escadas.

Capitulo 32 parte final-O amor e o Ódio

- Meu Deus… Minha filha é uma femme fatale e eu nem fazia idéia disso – ela murmurou, quando já parecia um pouco mais adaptada aos fatos, e me encarou com o olhar levemente perdido – Quer dizer… Dois de uma vez? 
Baixei meu olhar, sentindo uma vergonha infinita, mas mamãe não me deu tempo suficiente para mergulhar nela. 
- Se eu te disser que isso é algo fora do comum, vou ser honesta e mentirosa ao mesmo tempo – a ouvi continuar, e reergui meus olhos até os dela, agora um pouco mais focados – Não é todo dia que uma aluna conquista dois professores assim, mas traições inevitáveis acontecem todos os dias, assim como a Sophia te disse. Ela fez uma breve pausa, buscando as palavras, e eu me concentrei em não parar de respirar, por mais tensa que eu estivesse. 
- Isso tudo que você me contou… É passado, certo? Você e o Thur estão juntos de verdade agora, e não há chance alguma de Mica retomar seu antigo posto? – ela perguntou, e eu confirmei sem hesitar – Ótimo. Você se meteu numa bela saia justa, mas pelo visto tomou a sua decisão e não pretende cometer o mesmo erro. 
- De preferência, nunca mais – reforcei, realmente traumatizada, e mamãe esboçou um sorrisinho. 
- Bom, eu não vou dar mais nenhum discurso filosófico por hoje, não estou conseguindo nem me lembrar do meu nome. Minha cabeça vai começar a doer daqui a pouco, e eu ainda tenho muito para digerir e concluir essa noite – ela disse, sem uma expressão muito bem definida – Só o que eu te digo é: se você esperava que eu te expulsasse de casa e arrancasse o seu rim pela boca… Infelizmente não foi dessa vez. Eu não estou te odiando nem com vergonha de você, só preciso formar uma opinião concreta sobre tudo isso… Está tudo bem, de verdade. Amanhã conversaremos de novo e eu vou saber exatamente o que te dizer, pode ser? 
- C-claro – gaguejei, sentindo pela segunda vez um alívio imensurável me preencher devagar, e mamãe me deu um beijo na testa. Eu tinha uma certa noção de que ela era liberal e compreensiva, mas não tanto. 
- Vou tomar um banho, começar a acomodar tudo isso na minha cabeça… A água quente vai me ajudar, tenho certeza – ela falou, levantando-se e indo até as escadas com um sorrisinho no rosto – Ah, sim, pode ligar pro Thur agora dizendo que está viva. E diga a ele que está intimado a vir jantar conosco nesse sábado. Vou preparar a melhor mousse de chocolate da história pra sobremesa. 
Dei um risinho divertido, vendo-a subir os degraus, e fiquei paralisada por alguns segundos, completamente incrédula. 
Eu tinha ouvido errado ou minha mãe acabara de dizer que ia fazer mousse de chocolate especialmente para Thur? 
Talvez eu estivesse usando drogas sem saber disso. Eu já devia saber que o bebedouro da escola não era confiável. 
Me mantive imóvel por mais um tempo, atordoada demais para me mover, e assim que fui capaz, peguei o telefone e disquei o número de Thur. 
- Alô? – ele atendeu, no primeiro toque. Demorei algum tempo para finalmente abrir a boca. 
- Eu… Eu tô viva – murmurei, sem saber exatamente o que pensar. 
- Deu tudo certo? – o ouvi perguntar, eufórico, e eu assenti, esquecendo-me de que ele não me via. 
- Sim… Pelo menos foi o que ela me disse – respondi, tropeçando um pouco nas sílabas – Ela até te… Convidou pra jantar no sábado. 
- Pois diga a ela que eu estarei aí – ele comemorou, rindo de um jeito aliviado e divertido - Eu disse que ia ficar tudo bem, não disse? 
Somente após ouvir o que ele havia dito, consegui sair de meu transe e me dar conta do que havia acontecido. 
Tudo ficaria bem agora. Eu tinha o apoio de todos que realmente eram importantes para mim, e não precisava mais enganar ninguém. 
Quanto a Mica? Bom… Ele ainda era um problema. Mas agora eu podia enfrentá-lo com toda a minha força, sem precisar desviá-la para nenhuma outra pendência. 
Pela primeira vez desde que toda aquela confusão começara, eu me sentia verdadeiramente forte. 
- É… Você disse mesmo – sorri, sentindo uma certa dose de ansiedade e segurança circulando em minhas veias – Está tudo bem. 

Me sentei em minha carteira, abrindo meu caderno e tirando o estojo da mochila. Por uma razão que tinha nome, sobrenome e sede de vingança, eu estava alerta, apesar da noite mal dormida devido à tensão e ansiedade que ainda me atormentavam. 
Sophia, já a par de todos os acontecimentos da noite anterior (ligações noturnas são um certo costume entre nós, ainda mais em situações como aquela), me pedia calma. 
Tudo vai dar certo, nós estamos do seu lado, ela dizia. 
Ok. Pode até ser. 
Mas ainda assim, meu estômago insistia em contorcer-se a cada dez segundos, lembrando-me do mau pressentimento que apitava como uma bomba-relógio no fundinho de minha mente há dois dias. 
Onde foi parar aquela dose de segurança que estava bem aqui ontem? 
Um grupo de garotas rindo um tanto escandalosamente entrou na classe, parcialmente vazia devido ao constante atraso da maioria dos alunos, e em alguns dias, dos próprios professores, que costumavam enrolar um pouco antes de finalmente iniciarem seu dia de trabalho. Fingi anotar algo em meu caderno, mas pude sentir os olhares delas ardendo sobre mim, cheios de maldade. Me concentrei em minha respiração, tentando me manter calma, mas bastou uma espiada de canto de olho para que um nó se formasse em minha garganta. 
Maria Smithers não havia entrado na sala junto com suas melhores amigas, como ela fazia todos os dias… 
Sem exceção. 
Não poderia haver nenhum tipo de irregularidade nisso, sendo que eu a havia visto no pátio antes de subir, certo? Talvez ela estivesse se amassando com algum parrudão do time de futebol e pretendendo matar a primeira aula… 
Pela primeira vez em toda a sua vida escolar. 

É. Isso. Certo. Sem pânico. Não há o que temer. 
-
 Roberta Messi? – o inspetor perguntou, colocando a cabeça para dentro da sala de aula, e eu pulei na cadeira, assustada ao ouvir meu nome. 
- E-eu – respondi, erguendo discretamente a mão, e ele me encarou com a expressão indiferente.

- A diretora me pediu pra te chamar – ele disse, e imediatamente todas as amigas de Maria fincaram seus olhares em mim – Ela quer conversar com você na sala dela.

Prendi involuntariamente a respiração por alguns segundos, encarando o inspetor que começava a estranhar minha demora, e tudo que consegui fazer foi assentir, levantando-me e indo até a porta com a mente em branco. Talvez eu tivesse atingido um nível tão alto de tensão que boa parte de meus neurônios tivessem morrido fritos.

- Boa sorte, vadia – uma das garotas do grupinho maldoso murmurou quando passei por ela, me encarando como se eu fosse uma serial killer a caminho da injeção letal – Você vai precisar.

Franzi a testa, sem saber como reagir, e apenas continuei andando até o corredor, descendo as escadas rumo à diretoria. Minhas pernas tremiam e meu rosto estava congelado numa expressão vazia, mas meus músculos continuavam me levando até a sala na qual a diretora me esperava por algum motivo. Eu não era exatamente o tipo de pessoa masoquista, por mais que isso seja duvidoso de vez em quando, mas inexplicavelmente, eu sentia que meu corpo agora me guiava na direção do olho do furacão.

Parei à porta da diretoria, ainda num estado de hipnose. Encarei a maçaneta, sem coragem de tocá-la, mas algo fez com que minha mão fosse mecanicamente até ela e a girasse, abrindo a porta e revelando quatro pessoas dentro dela.

- Olá, senhorita
 Messi – a diretora Maggie Scott disse, indicando a única cadeira vazia em sua pequena sala com um gesto de cabeça – Sente-se, por favor. Receio que tenhamos alguns assuntos a esclarecer… E pelo que eu estou vendo, isso vai nos tomar um bom tempo. 
Fixei meus olhos nela por alguns segundos, sentindo o mau pressentimento explodir dentro de meu peito, e logo desviei meu olhar do dela. Havia mais três olhares sobre mim, e cada um deles roubou minha atenção por um curto período de tempo, deixando-me zonza com as cargas emocionais tão divergentes que transmitiam.

Diante da mesa da diretora Scott,
 Arthur Aguiar, Micael Borges e Maria me fitavam, todos com enorme intensidade. 
Porém, com intenções bem diferentes.

Capitulo 32 parte 7-O amor e o Ódio

Estava em alguma outra dimensão, alienada demais com os milhares de pensamentos em minha mente para ter noção do tempo, quando ouvi a maçaneta da porta girar. Meu coração pareceu parar por um momento, congelado de nervoso.
- Boa sorte – sussurrei para mim mesma, respirando fundo e ficando de pé a tempo de ver mamãe entrar. Era agora ou nunca.
- Oi, filha! – ela sorriu, trancando a porta por dentro – Você parece melhor… Como foi a sua tarde?
Sinceramente?
- Já tive melhores – respondi, sendo honesta de certa forma, sem conseguir retribuir o sorriso. Notando meu jeito estranho, mamãe parou a alguns passos de mim, me olhando com um pouco de receio.
- O que houve? – ela perguntou, colocando sua bolsa no sofá – Que carinha é essa?
Respirei fundo mais uma vez, necessitada de oxigênio para me acalmar, e dei o primeiro passo rumo ao meu desastre.
- Mãe… Eu tenho uma coisa pra te falar – comecei, sentindo meu coração disparar e meu corpo esquentar de tão nervosa que estava.
- Ah, não… – mamãe suspirou, levando as mãos ao peito com a expressão um tanto horrorizada – Você está grávida!
Franzi a testa, sem compreender seu pavor antecipado, e tratei de desfazer o mal entendido.
- Não, mãe, não é isso…
- Está usando drogas? – ela chutou novamente, mantendo o olhar aterrorizado, e se não estivesse tão nervosa, teria rido horrores.
- Claro que não! – falei, revirando os olhos.
- Não me diga que está pensando em abandonar os estudos e ir morar com um namoradinho do colégio num trailer no Texas! – ela disse, ainda mais chocada, e eu me irritei.
- Será que eu posso falar o que é de uma vez ou você vai continuar com esses palpites sem sentido? – bufei, e ela abandonou a expressão de horror, adotando uma séria – Obrigada.
- Desculpa, filha… É que eu me assustei com esse seu jeito sério – ela murmurou, e eu esbocei um rápido sorriso compreensivo – Pode falar, querida, o que foi?
Hesitei por alguns segundos, ainda ponderando a hipótese de desistir, mas eu sabia muito bem que não podia. Ou ela saberia por mim ali e agora, ou teria uma bela surpresa na manhã seguinte, na sala da diretora. E eu preferia cometer pelo menos um ato de honestidade em consideração a ela.
- Eu… Estou namorando – foi só o que consegui dizer, fechando os olhos por alguns segundos e me amaldiçoando por minha falta de coragem de completar a frase.
- Oh, meu Deus! – ela sorriu, parecendo aliviada – Era só isso, meu amor? Que susto! Pensei que era algo mais sério!
Abri os olhos, vendo-a me encarar com alegria, e esperei que ela fizesse a pergunta que provavelmente reverteria toda aquela situação.
- Quem é o sortudo?
Sustentei seu olhar, engolindo em seco. Não havia mais como fugir.
- Meu professor de biologia – respondi, completamente apavorada.
Mamãe não esboçou reação. Não a princípio.

Meus olhos estavam bem abertos e fixos em seu rosto, agora com um sorrisinho congelado que aos poucos se desfazia. Minha garganta fechou, meu coração batia freneticamente, minha respiração havia parado por alguns segundos, mas tudo que eu conseguia fazer era encarar mamãe, esperando que a ficha caísse.
Imaginei que ela levaria algum tempo para absorver o impacto.
- Uau… Isso… Isso é verdade? – ela riu, bastante chocada, mas ainda não havia repreensão em sua voz – Você está mesmo namorando seu professor?
Nervosa demais para abrir a boca, apenas assenti.
O sorriso de mamãe não desapareceu de vez assim que reafirmei minha revelação, como eu imaginei que desapareceria. Por um segundo, cogitei a hipótese de minha mãe estar usando drogas.
- Quantos anos ele tem? – ela perguntou, cerrando os olhos de uma forma interessada. O que diabos estava acontecendo? Cogumelos alucinógenos no cardápio da empresa?
- Trinta – respondi, vendo-a assentir devagar, processando a informação, e a poupei do cálculo - Ele é treze anos mais velho que eu.
Mamãe ficou em silêncio por alguns segundos, e eu não ousei quebrá-lo. Eu temia ser atacada a qualquer segundo, por isso me mantive na defensiva. Aquela reação inicialmente conformada não era a que eu estava esperando, me colocava em território completamente desconhecido.
- Há quanto tempo? – ela indagou, mantendo a bizarra naturalidade – Digo, há quanto tempo vocês estão namorando?
- Quase dois meses – falei, mal conseguindo piscar de tão alerta. Onde estava o momento em que ela se jogaria sobre mim e arrancaria todos os meus cílios com uma pinça? A qualquer momento agora, talvez.
- Hm… – ela voltou a assentir, e ergueu rapidamente as sobrancelhas – Ele é um bom rapaz? Quer dizer… Homem? Argh, isso é esquisito… Você entendeu.
Franzi a testa, sem saber como respondê-la. Eu estava completamente desprevenida.
- Erm… Que eu saiba, sim – balbuciei, vendo-a me olhar como se estivéssemos conversando sobre os bíceps do vizinho gostoso – Ele é bastante, hm… Gentil.
Ah, tá. Gentil não era um adjetivo exatamente abrangente para descrever Thur, mesmo que ele tivesse seus momentos. Mas tudo bem, eu estava ocupada demais tentando decifrar a reação de mamãe para pensar naquilo.
- Isso é bom… Gentileza é importante – ela comentou, aproximando-se de mim sem pressa, e eu me preparei para perder um braço no maior estilo Kill Bill ou algo parecido – Imagino que vocês já… Bem, vocês já dormiram juntos, certo?
- Mãe… Aonde você quer chegar? – perguntei, sem conseguir mais controlar meu nervosismo e me sentindo horrivelmente desconfortável com o rumo da conversa – Por que todas essas perguntas? Quer dizer… Eu estava esperando uma reação muito mais…
- Violenta? – ela completou, esboçando um sorrisinho quase divertido, e eu apenas pisquei algumas vezes, sem saber o que pensar.
- Talvez – confessei, completamente confusa. Mamãe fechou os olhos por alguns segundos, soltando um risinho, e segurou minhas mãos, levando-me para o sofá, onde nos sentamos.
- Eu imagino o quão estressantes esses dois últimos meses devem ter sido pra você, querida – ela suspirou, colocando minhas mãos entre as suas e me olhando com compreensão – Mas não precisava ter sido desse jeito. Fico muito feliz por você ter me contado hoje, foi muito corajoso da sua parte… No entanto, preciso confessar que já desconfiava de que havia algo por trás das temporadas na casa da Sophia.
Esbocei um sorrisinho extremamente sem graça, sentindo minhas bochechas esquentarem, e mamãe me lançou um olhar empático. Aquilo estava realmente acontecendo ou eu havia desmaiado e estava delirando?
- Nós, mães, criamos nossos filhos para o mundo – ela prosseguiu, alternando olhares entre nossas mãos e meu rosto – Com você não é diferente. A cada dia que passa, eu me dou conta de que você é menos minha e mais sua… A cada dia, o seu espaço e a sua privacidade se tornam muito maiores do que eu jamais vou poder acompanhar, e eu entendo isso. É completamente normal e saudável que você amadureça dessa forma. Enfim, o que eu quero dizer com todo esse papo furado é que eu agradeço por você ter me contado, muito mesmo. Apesar de saber que eu poderia sentir muita raiva, você não fugiu de mim, porque temos muita confiança uma na outra. E essa é uma das maiores lições que uma mãe pode ensinar a um filho. Estou orgulhosa dessa prova de que você está amadurecendo… Deixando de ser a minha garotinha para se tornar uma mulher independente, que sabe o que é melhor pra si.
Mamãe manteve o sorriso compreensivo, e só então eu me dei conta de que tinha chances concretas de continuar viva e inteira após aquela conversa. Toda a tensão daqueles últimos tempos estava se esvaindo lentamente, e eu me sentia mais leve a cada segundo. O apoio dela era tudo o que eu precisava para ser verdadeiramente feliz, e agora que eu o estava recebendo, todos os problemas pareciam cada vez menores.
- Obviamente, eu estou morrendo de medo disso – ela confessou, e ambas sorrimos de um jeito nervoso – Eu posso ser bastante liberal, mas ainda sou mãe, e mães têm uma certa fobia em relação a tudo que possa representar perigo para seus filhos. Portanto, sim, eu estou muito assustada com o fator idade e pretendo conhecer e investigar direitinho esse seu namorado. Mas eu não posso simplesmente enfiar a mão na sua cara e te botar pra fora de casa por causa disso… Sabe por quê?
Neguei com a cabeça, focando toda a minha atenção em suas palavras, e ela continuou:
- Porque a primeira coisa que você faria seria procurá-lo… Estou errada?
Sorri junto com ela, totalmente desconcertada, e neguei novamente.
- Qual seria a minha atitude como mãe deixando minha filha nas mãos de um homem que eu não conheço? – ela perguntou, erguendo as sobrancelhas e entortando a boca por alguns segundos – Eu seria uma completa desnaturada, sem dúvida alguma. Não é certo te punir por gostar de alguém mais velho. O amor não escolhe endereço, sexo, religião… Muito menos idade. E eu sei muito bem disso.
- Sabe? – murmurei, intrigada, e ela assentiu com um sorriso.
- Acha que nunca me apaixonei por um professor? – mamãe riu, e eu a acompanhei – É claro que já. Várias vezes, por sinal. Chorava porque eles nunca me notavam, me derretia toda só de conversar com eles, até tinha vergonha de simplesmente olhar pra eles… Acredite, eu era patética. E assim como nós duas, praticamente toda garota se apaixona loucamente por um professor. Faz parte da explosão de hormônios que acontece na adolescência.
Concordei com a cabeça, apertando sua mão e sentindo como se um peso enorme tivesse sumido de meus ombros.
- Além do mais, seu pai é oito anos mais velho que eu, esqueceu? – ela ressaltou, e eu ergui as sobrancelhas, só então me recordando disso – Quando nos conhecemos, eu tinha 19 e ele, 27. Mesmo com nossa diferença nem tão significativa aparentemente, enfrentamos um certo preconceito. Sua avó não aceitou durante os primeiros meses, mas quando eu disse que iríamos nos casar, dois anos depois, ela percebeu que nós nos amávamos de verdade e passou a aceitar muito bem os oito anos entre nós.
Assenti, refletindo sobre o que ela havia dito. Naquele momento, imaginei como estaria meu pai em Aberdeen, casado com sua nova esposa após a separação de mamãe.
Provavelmente, lidando muito bem com os dez anos de diferença entre ele e minha madrasta. O pensamento me fez sorrir, e me lembrou de que eu estava devendo uma visita a eles desde as férias de verão passadas.
- Obrigada por me compreender – agradeci baixinho, encarando-a com toda a minha sinceridade e gratidão – Eu juro que quis te contar desde o princípio, mas tive muito medo.
- Não precisa se desculpar, meu amor – ela disse, sorrindo compreensivamente – Namorado nenhum nesse mundo vai te amar mais do que eu, portanto confie em mim pra tudo, eu vou te apoiar seja no que for. Até mesmo se estiver grávida, usando drogas… Mas quanto à parte do trailer no Texas, nem pensar.
- Obrigada – falei, dando risada de sua careta ao finalizar a frase, e ela se empertigou no sofá, como se estivesse embaraçada com o que estava prestes a dizer.
- Já que estamos resolvidas quanto a isso… E se você me perdoa a curiosidade, eu… Bem, eu quero saber de tudo – mamãe confessou, dando um sorrisinho sem graça, e eu engoli em seco – Como começou, o que aconteceu… Só corte os detalhes mais sórdidos, por favor.
Hesitei antes de respondê-la. Talvez o pior ainda estivesse por vir.
- Eu não sei se você vai gostar disso… – respirei fundo, resgatando minha coragem e determinação para narrar os verdadeiros acontecimentos dos últimos meses, até mesmo os menos gloriosos – Mas eu prometi a mim mesma que você saberia de tudo por mim, antes de possivelmente ouvir versões de outras pessoas.
Mamãe franziu a testa diante de minha seriedade, e eu comecei.
Expliquei toda a história, desde breves perfis dos dois até os recentes acontecimentos em relação ao meu rompimento com Mica. Não alterei nenhum detalhe, determinada a ser totalmente verdadeira com mamãe. Mesmo tendo demonstrado muita compreensão, eu não sabia como ela reagiria diante de todas aquelas revelações, e eu não pretendia mais mentir para ninguém. Muito menos para ela. Mesmo que isso fosse mudar completamente sua reação diante da situação.
- Deixe-me ver se entendi direito – ela disse, quando eu terminei de falar, concentrada em organizar os fatos em sua mente – Você namorou por um tempo com um, mas acabou traindo-o com o outro e se apaixonando por ele. Quando você já não agüentava mais toda essa culpa e estava finalmente disposta a ficar apenas com o amante, descobriu que o outro um tinha uma noiva desde o começo, e agora ele está disposto a tudo para te prejudicar porque descobriu que estava sendo traído?
- Basicamente, sim – assenti, levando alguns segundos para compreender o resumo confuso que ela havia feito e sentindo-me novamente nervosa diante dela. Agora sim eu estava quase certa de que receberia alguns golpes de luta livre ou seria submetida a algum tipo de tortura chinesa.
Mamãe ficou quieta por alguns minutos, compenetrada em algo que eu não estava enxergando na altura de seu joelho, e eu não ousei interromper seu devaneio. Era informação demais para uma noite só.

Continuação capitulo 32 parte 6-O amor e o Ódio

sim – ele cuspiu, com a voz carregada de desdém, e aos poucos meus olhos foram se enchendo de lágrimas - Você não vale o chão que pisa, garota… Maldito foi o dia em que eu te deixei entrar na minha vida. Respirei fundo, tentando organizar minha mente, mas minha cabeça doía tanto que eu mal conseguia abrir os olhos. Parecia que ele havia rachado meu crânio ou algo do tipo, pra ser bastante honesta. Mesmo assim, fiz um esforço, e por mais que minha voz tenha saído baixa, ele pôde me ouvir.
- Vá pro inferno.
- Eu vou… Pode ter certeza disso – ele murmurou, e sua respiração bateu em meu ouvido, mas por mais que eu sentisse medo, tudo estava girando demais ao meu redor para que eu pudesse me afastar – Mas vou arrastar vocês dois comigo.
- Me deixe em paz – pedi, apoiando-me no sofá ao meu lado ao sentir minha cabeça pulsar, e ele soltou um risinho debochado.
- Não posso fazer isso… Tenho uma promessa a cumprir – Mica rosnou ao pé de meu ouvido, apertando meu braço com tanta força que seus dedos interromperam minha circulação e fazendo um gemido baixo escapar de minha garganta – Já se esqueceu dela?
Assim que ouvi suas palavras, foi como se eu tivesse sido arrancada dali. Eu não estava mais no apartamento de Mica, minha cabeça não doía, nem sua mão machucava meu braço. Uma brisa suave brincava com meus cabelos, e um cheiro de mar adentrava minhas narinas, assim como um magnífico pôr-do-sol era tudo o que eu via diante de mim.
A promessa… Eu me lembrava bem dela. Tão bem que nem me assustei ao ouvir minha própria voz, junto com a dele, ecoar em minha mente.
 
- Se eu te pedir uma coisa… Promete que vai fazer? 

- O que você quiser. 
- Por favor,
 
prometa que vai fazer. 
- Prometo… Não confia em mim? 
- Então me prometa só mais uma coisa… Se um dia eu te machucar… Prometa que vai fazer pior comigo. 
- Como assim, Roberta? Como você poderia me machucar? 
- Eu só quero que você me dê a certeza de que vou me arrepender amargamente do dia em que te fizer sofrer… Quero que prometa que não vai me deixar em paz sem me punir por uma injustiça dessas.
 

Abri meus olhos, sentindo grossas lágrimas escaparem por eles, e o chão do apartamento de Mica surgiu em minha visão. A brisa subitamente parou, e o cheiro do mar sumiu de imediato. Porém, as vozes em minha cabeça continuaram a reproduzir minha memória, como se alguém a estivesse sussurrando em meu ouvido.
- Você não me faria sofrer… Faria?
 
- Eu me lembro… – soprei, lutando contra o som das ondas do mar quebrando próximas à costa. O conflito entre a realidade e a lembrança estava me atordoando demais para que eu conseguisse dizer algo mais.
- Ótimo… Melhor não se esquecer dela tão cedo – ele sussurrou, fitando meu rosto desolado antes de me soltar – Caso contrário… Vai ser um prazer refrescar a sua memória.
Por alguns segundos, tudo que fui capaz de fazer foi encarar o chão, paralisada, até conseguir levar minhas mãos trêmulas ao rosto, cobrindo minhas lágrimas conforme eu corria desesperadamente até a saída do apartamento. Mica não tentou me impedir, e sem nem ver o que estava fazendo, girei a maçaneta e abri a porta, mas quando fiz menção de correr, meu corpo colidiu contra o de alguém do lado de fora. Antes mesmo que eu pudesse reconhecer a pessoa, seus braços me envolveram e sua voz alarmada perguntou:
- O que aconteceu?
- Thur… – soprei, agarrando sua camiseta e afundando-me em seu peito. Eu não tive forças para dizer nada; estava tão nervosa e com tanta dor que mal conseguia pensar direito.
- Olá, Aguiar – ouvi a voz de Mica cumprimentar, transbordando uma falsa simpatia. O leve sadismo em seu tom me fez encolher meu corpo.
- Vamos embora – Thur me disse, após alguns segundos em silêncio, e me virou sutilmente na direção das escadas.
- A conversa ainda não terminou – Mica impôs, voltando à sua postura agressiva, porém não foi necessário muito tempo para que ele recebesse uma resposta à altura.
- Estou pouco me fodendo para o que você acha – Thur rosnou, pronunciando cada palavra com todo o seu desprezo e ódio - Pra mim, ela não deveria nem ter começado.
Mica pareceu intimidado demais para retrucar, e nós não o demos tempo para isso, pois em poucos segundos já estávamos descendo os degraus rumo à saída.
- Nunca.
- Mas o que… – Andy disse, levantando-se assim que nos viu, e eu imaginei que Thur não deveria ter sido muito diplomático há alguns minutos, quando entrou.
- Não enche – Thur o interrompeu, caminhando em passos largos até a rua e quase me carregando pelo caminho, pois minhas pernas insistiam em fraquejar – Roberta, eu preciso que você fique acordada, está bem?
Meus olhos se fecharam sozinhos assim que tudo ao meu redor girou mais uma vez, me causando um certo embrulho no estômago. Eu me sentia numa montanha-russa após um farto almoço. Engoli em seco, sentindo minha cabeça latejar, e me deixei conduzir até o carro. Seria possível que Mica tivesse conseguido me afetar tanto com aquele tapa ou tudo era apenas efeito psicológico causado por meu nervosismo?
- Casa… – balbuciei assim que ele me sentou e me ajudou com meu cinto de segurança, apertando seu pulso de leve para que ele prestasse atenção no que eu queria dizer – Eu… Vai me levar… Você vai…
- Claro que não, Roberta, eu vou te levar pra um hospital – Thur respondeu, categórico – Você não está conseguindo nem formar frases!
- Não, eu… Quero ir pra casa – insisti, respirando fundo e conseguindo pensar com mais clareza – Eu só fiquei nervosa demais…
- Pode ser algo sério – ele resistiu, preocupado, mas eu não o deixei vencer.
- Eu só estou um pouco atordoada, não se preocupe… Só preciso ir para casa me acalmar – falei, dessa vez com mais firmeza, já me dando conta de que o perigo estava longe outra vez - Por favor, é só o que eu peço.
Apesar de a dor em minha cabeça ter pulsado logo após minhas palavras, pareceu funcionar. Thur sustentou meu olhar por alguns segundos, indeciso, e fechou a porta, entrando pelo lado do motorista sem demora.
- Só não durma – ele disse, ligando o carro e respirando fundo antes de acelerar. Assenti levemente, repousando minha cabeça no encosto do banco, e fechei os olhos para aliviar a dor.
Dois segundos depois, um alívio imenso inundou minha mente, fazendo com que o barulho do motor do carro sumisse e eu apagasse.

- Eu disse pra não dormir, sua… Coisa teimosa.

Abri os olhos, sentindo minha cabeça e pálpebras pesadas. Pisquei algumas vezes para focalizar o borrão azul e branco à minha frente, e fixei meu olhar no de Thur assim que consegui definir onde seus olhos estavam.
- Me desculpe – murmurei, e pigarreei ao ouvir minha voz completamente rouca. Olhei ao meu redor, reconhecendo meu quarto, e só então me dei conta de que estava deitada em minha cama, com Thur sentado ao meu lado.
- Como você está? – ele perguntou, enquanto eu me sentava devagar e levava as mãos à cabeça, massageando-a – Doendo muito ainda?
- Não… Quase nada – menti, dando um sorrisinho que não deve ter sido muito convincente e sentindo a dor aumentar a cada vez que piscava – Nada que um analgésico não resolva.
Thur soltou um suspiro discreto, me olhando com intensidade, e eu insisti no sorriso. Não deu certo.
- O que aconteceu naquele apartamento, Roberta? – ele indagou, com a voz preocupada – O que ele fez?
Respirei fundo, abandonando o falso sorriso e desviando meu olhar do dele para pensar um pouco. Por que eu deveria mentir ou omitir algo? Eu estava cansada disso, e sabia que não precisava me preocupar quanto a ser sincera com ele.
- Ofensas, ameaças… Até aí, nada que eu já não esperasse – respondi, um tanto hesitante, e voltei a olhá-lo – Mas eu acabei perdendo a cabeça e dei um tapa nele.
- E ele revidou – Thur deduziu, franzindo a testa e cerrando os olhos em indignação – Que belo merda ele é. Eu ainda vou acabar com esse put…
- Ele vai se mudar, me parece – o interrompi, tentando não trazer de volta à minha mente aquela cena horrível – Não consegui perguntar para onde, mas tenho um palpite.
- Leeds – ele disse, e eu assenti – Espero que ele se mude amanhã mesmo, e fique pra sempre… Bem, com a outra lá.
Fingi concordar com suas palavras, mas a maldita promessa me atingiu em cheio. Mesmo que não conseguisse nos causar nenhum dano, o que não me parecia muito provável, Mica ainda faria o que estivesse ao seu alcance para nos prejudicar.
E eu tinha uma certa noção de por onde ele começaria.
- Que horas são? – perguntei, um tanto assustada, e olhei para o relógio no criado-mudo – Sete e quarenta e dois! Minha mãe vai chegar daqui a pouco!
- Eu sei, já estou indo embora – Thur me acalmou, ainda reflexivo diante do que eu havia dito sobre minha conversa com Mica – Você vai contar tudo a ela hoje?
Fechei meus olhos, esfregando meu rosto com as mãos e tentando não ficar nervosa diante do que ainda tinha que fazer. Eu não podia mais perder tempo. Se antes mesmo de todos os acontecimentos daquela tarde eu já tinha certeza de que Mica agiria rápido, agora eu já estava preparada para que o dia seguinte fosse a confirmação de minha teoria.

domingo, 14 de outubro de 2012

Capitulo 32 parte 6- O amor e o Ódio

Respirei fundo pela enésima vez, fechando meus olhos por alguns segundos. Apesar da leve brisa que entrava pela janela conforme Thur virava na rua de Mica, eu estava me sentindo um tanto sufocada dentro de seu Porsche, e ele obviamente estava notando isso. Eu só não estava sendo bombardeada com palavras de conforto ou algo parecido porque ele estava ainda mais nervoso para sequer abrir a boca.
- Eu vou com você – ele disse num tom autoritário, enquanto estacionava na frente do prédio. Revirei os olhos. Era a quinta vez que eu teria que lhe explicar por que aquilo simplesmente não poderia acontecer.
- Eu entendo que você esteja preocupado, mas… Nem pensar – falei, com a voz calma, e o vi bufar em desaprovação – A única coisa que vai acontecer se você for comigo é uma briga. E não foi pra isso que eu vim.
- Que pena – Thur sorriu, cínico, e eu lhe lancei um olhar de censura – Desculpa, você sabe que eu não sei ser diplomático.
- E assim como eu, você sabe que um punho no fundo da garganta dele não vai resolver nosso problema – lembrei, cerrando meus olhos e vendo-o finalmente me olhar após desligar o carro – Por esse motivo, você fica aqui embaixo.
Thur sustentou meu olhar por alguns segundos, e depois desviou o seu, demonstrando seu descontentamento com aquela situação. Ele segurou minha mão, apertando meus dedos com certa força, e eu suspirei, com o coração um tanto acelerado. Meu Deus, ele estava me deixando ainda mais nervosa com aquela agonia toda.
- É pra tomar cuidado, ouviu? – ele murmurou, ranzinza, fitando nossas mãos com seriedade – E não demore, senão eu…
- Aguiar, chega – o interrompi, vendo-o voltar a me encarar com os olhos surpresos e franzir levemente a testa, a cada segundo mais inquieto – Você já repetiu esse discurso pelo menos umas cinco vezes! Vai dar tudo certo, pense positivo junto comigo, pode ser?
Thur suspirou profundamente, e eu coloquei minha outra mão sobre a dele, baixando meu olhar até elas. Por um instante, a pequena cicatriz que eu havia deixado em seu braço há alguns meses prendeu minha atenção. Já havíamos passado por tanta coisa… Nunca pensei que viveria um momento como aquele.
- Desculpe, eu sei que estou sendo chato… Mas é que eu não estou gostando nada disso – Thur suspirou, e eu levei uma de minhas mãos até seu ombro, massageando-o e sentindo seus músculos rígidos ali – E não estou tendo sucesso nenhum em tentar disfarçar.
- Confie em mim – pedi, olhando-o com uma convicção que eu fingia ter – Vai ficar tudo bem.
Ele me encarou por alguns segundos, em dúvida, mas logo assentiu, mesmo que contra sua própria vontade. Ele sabia que não adiantaria tentar me convencer a voltar para casa sem falar com Mica. Acariciei levemente seu rosto, sorrindo para ele, e deixei que ele se aproximasse o suficiente para tocar meus lábios com os seus.
- Tá bom, eu te deixo ir agora… Mas vai logo, antes que eu me arrependa – Thur sussurrou após alguns minutos, afastando seu rosto do meu com a expressão extremamente contida a ponto de parecer vazia aos olhos de alguém menos íntimo - E volte logo.
- Eu vou voltar – falei, abrindo a porta e saindo do carro – Fique calmo, professor.
- Impossível – ele negou, encostando a testa no volante, e eu respirei fundo antes de caminhar até a portaria do prédio.

- O sr. Borges já a está aguardando – Andy disse, com sua típica voz cordial, assim que cheguei à portaria. Engoli em seco, sabendo que aquela era a última vez em que eu entraria naquele edifício, se tudo fluísse de acordo com meus planos. Disfarcei o turbilhão de pensamentos que colidiam dentro de minha cabeça e assenti com um sorrisinho tenso, dirigindo-me à escadaria. Subi os degraus devagar, tentando imaginar como ele agiria (e eu também) quando chegasse ao meu destino, e somente quando parei à porta de seu apartamento foi que todas as especulações enfim sumiram de minha mente, dando total lugar à insegurança.

Ouvi passos cada vez mais próximos do outro lado da porta. Ele estava vindo me receber.
Num ato instintivo, quase dei meia volta e saí correndo. Mas, ao contrário do que meus instintos ordenavam, respirei fundo mais uma vez e aguardei até que a maçaneta girasse e a porta se abrisse.
O silêncio que se instalara em meus ouvidos assim que nossos olhares se encontraram me fez pensar por um momento que minha cabeça explodiria.
- Você veio – Mica murmurou, com a voz fria, e eu senti um arrepio percorrer meu corpo inteiro. Quem era aquele homem que eu um dia pensei conhecer? Definitivamente, esse não era o mesmo.
- Por que não viria? – perguntei, tentando parecer um pouco mais firme do que realmente estava, e ele ergueu as sobrancelhas rapidamente, ponderando minha indagação. Não gostei nem um pouco daquilo.
Sem dizer mais nada, ele deu espaço para que eu entrasse em seu apartamento, e eu o fiz, parando a poucos passos da porta e virando-me em sua direção. Nos poucos segundos que tive para olhar ao meu redor, tudo que vi foram os móveis, desprovidos de qualquer decoração, e várias caixas empilhadas por toda a sala, o que para mim só significava uma coisa.
Mudança.
- Como você pode ver, eu ainda tenho muito o que fazer por aqui – ele disse, lançando um rápido olhar para as caixas e logo depois me encarando – Então pretendo terminar logo com essa conversa.
- Que bom que concordamos nesse ponto – assenti, sustentando seu olhar sem um mínimo sinal de fraqueza – Quanto mais rápido resolvermos nossas pendências, melhor para todos.
- Ele te trouxe aqui? – Mica perguntou, e o vazio de emoções em seu rosto ao mencionar Thur me impressionou – Está te esperando lá fora?
- Isso não importa – respondi, um tanto incomodada com sua curiosidade mórbida – O que realmente importa agora é que eu quero terminar essa conversa de uma forma pacífica.
- Pacífica? – ele repetiu, num risinho medíocre, e eu não demonstrei emoção alguma – Depois de tudo que aconteceu, você ainda espera que eu seja pacífico?
- Se eu estou sendo pacífica, por que você não pode ser? – falei calmamente, encarando-o com firmeza e vendo sua hostilidade fraquejar – Nós dois estamos manchados nessa história,Mica. Não banque o bonzinho, você não vai conseguir nada com isso.
- Você não entende – ele murmurou, balançando negativamente a cabeça de uma maneira um tanto perturbada, e pude vê-lo lacrimejar – Você nunca vai entender. Ele te cegou… Te envenenou contra mim.
- Não seja ridículo – rosnei, vendo-o respirar fundo e me fitar com os olhos vidrados, denunciando que lentamente ele ia perdendo o controle sobre si – Eu não vim aqui para ouvir seus motivos, porque pelo que estou vendo, você também não quer ouvir os meus. Explicações não vão mudar os fatos, pelo menos não para mim. E isso basta pra que resolvamos logo essa situação e sigamos com nossas vidas.
- Há quanto tempo? – Mica indagou, dando um passo em minha direção, e pela expressão ressentida em seu rosto, pude ver que ele não havia entendido uma palavra do que eu havia acabado de dizer – Há quanto tempo vocês dois estão juntos?
Suspirei profundamente, encarando-o sem uma postura muito bem definida, e alguns segundos depois ele repetiu sua pergunta, num tom um pouco mais enérgico.
- Há quanto tempo, Roberta?
- Desde o acidente de carro – respondi, fechando meus olhos por um momento, assustada com sua voz exaltada – Uns dois meses.
Encarei o chão por alguns segundos, ouvindo apenas a respiração pesada de Mica, mas logo ergui meu olhar até o dele. Seu rosto estava paralisado, em choque diante de minha resposta; seus olhos estavam arregalados, suas sobrancelhas franzidas e seus lábios entreabertos. Ele deu mais um passo na minha direção, respirando fundo, e eu não consegui esconder o pânico em minha expressão ao vê-lo erguer sua mão como se fosse me dar um tapa, porém não realizando nenhum movimento. Seus dedos se fecharam, formando um punho, e ele contraiu seus lábios, tremendo levemente e me encarando com os olhos úmidos e cheios de ódio.
Pela primeira vez na vida, eu senti um olhar verdadeiramente assassino sobre mim. Ele queria me matar, e o faria se tivesse coragem suficiente. Felizmente, ou não, ele não tinha.
- Por que você fez isso comigo? – ele disse com a voz embargada, abaixando seu punho e inundando seu olhar com mágoa – O que… O que eu fiz de errado?
- Eu não queria fazer, eu juro… – suspirei, sentindo-me um pouco mais aliviada ao ver a cólera agora controlada em seus olhos, porém a mágoa neles fazia uma enorme culpa formigar sob minha pele e influenciar meu tom de voz – Mas foi inevitável.
- Você acha que isso me convence? – ele explodiu, enraivecido, e se afastou um pouco de mim, passando as mãos compulsivamente pelos cabelos – Eu posso ter sido idiota o suficiente pra não perceber que estava sendo traído, mas eu não vou mais admitir que você pise em mim!
- E você? Não pisou em mim também? – rebati, irritada com sua atitude mesquinha – Acha que pode me fazer de amante sem que eu sequer soubesse da existência de sua noiva desde o começo e simplesmente sair ileso, se fazendo de bom moço ainda por cima?
- Eu fiz isso porque te amo! Eu fui burro o bastante pra me apaixonar por você! – Mica gritou, e agora as lágrimas rolavam por seu rosto enfurecido conforme ele voltava a se aproximar de mim – Eu já devia saber que você não vale porra nenhuma e não passa de uma vadiazinha que botaria um belo chifre na minha cabeça assim que tivesse a chance!
- Chega! – exclamei, e sem sequer conseguir pensar, atingi seu rosto com um tapa, usando toda a força que pude reunir – Eu não vim aqui pra te diminuir, e não admito que você faça isso comigo!
Mica levou uma mão à parte atingida de seu rosto, pego de surpresa com minha agressão, e sem nem hesitar, devolveu o tapa com toda a sua força, fazendo-me cambalear para o lado, totalmente desnorteada e com muita dor. Levei minhas mãos à cabeça, fechando os olhos e sentindo tudo girar ao meu redor, e novamente o gosto de sangue surgiu em minha boca.
- Eu te diminuo

Capitulo 32 parte 5-O amor e o Ódio

- Essa recepção com certeza compensou a entrada não triunfal – Thur sorriu ao afastar nossos lábios, e eu retribuí, sentindo meu rosto corar de leve – Mas não matou a minha saudade ainda. 
- Ah, não? – balbuciei, ainda zonza, vendo-o sorrir ainda mais e cerrar os olhos pra mim – Acha que devíamos fazer de novo? 
- E de novo – ele disse, roubando-me um selinho a cada vez que falava – E de novo… E outra vez… E mais uma. 
- Pare de abusar de mim, eu estou sensível – fechei os olhos ao senti-lo sugar meu lábio inferior, o que fez com que de repente a sala começasse a girar ao meu redor. Apertei algumas mechas de seus cabelos entre meus dedos, me arrepiando conforme ele dedilhava minhas costas delicadamente, e ele suspirou baixinho contra meus lábios. 
- Desculpe… Sua boca me desconcentra – Thur sussurrou, respirando fundo e afastando seu rosto até uma distância que me permitisse manter meu equilíbrio – Prometo que não vai acontecer de novo. 
Levei alguns segundos para restabelecer a firmeza em minhas pernas. Talvez eu estivesse mesmo frágil. 
- Vem, vamos nos sentar um pouquinho – falei, entrelaçando nossos dedos e conduzindo-o até o sofá. Acomodei-me, com as pernas flexionadas contra meu peito, e as abracei, vendo-o se sentar ao meu lado e me puxar para seu colo, sem nem se importar com o fato de que eu já estava confortável. Com certeza eu teria o triplo de conforto abraçada a ele, por isso, apenas sorri e deitei minha cabeça em seu ombro, enquanto ele me abraçava pela cintura e passava suas mãos por debaixo de minha camiseta larga. 
- Você parece melhor – ele disse baixinho, deslizando as pontas de seus dedos gentilmente por minha pele, e eu assenti devagar – Imaginei que conversar com a Sophia te faria bem. 
- Obrigada por ter explicado tudo a ela – murmurei, brincando timidamente com a gola de sua camiseta pólo azul e branca, uma de minhas favoritas – Foi muito sensato da sua parte. 
- Era o mínimo que eu poderia fazer – ele suspirou, fazendo com que sua respiração quente batesse em meus cabelos com mais força – A Abrahão é uma garota muito legal… Não pensei que ela fosse aceitar tudo tão bem. 
Sorri fraco, me sentindo a pessoa mais abençoada do universo por tê-la como amiga. Ela era realmente um anjo. Meus olhos se perderam por alguns segundos, vagando pela mobília da sala, e eu mordi meu lábio inferior, sem conseguir mais segurar a pergunta que ecoava em minha mente. 
- Como foi hoje na escola? 
Thur ficou em silêncio por algum tempo, observando algum ponto distante, e eu o encarei, tensa por uma resposta. 
- Ele não apareceu – sua voz grave falou, e seus olhos castanhos continuaram sem fitar os meus, talvez escondendo a raiva que seu timbre já denunciava – Tive que substituí-lo em duas aulas. 
Soltei todo o ar que involuntariamente havia prendido em meus pulmões, me sentindo mais tranqüila por não ter existido um contato entre os dois. Eu jamais me perdoaria se um deles perdesse a cabeça e iniciasse uma briga em pleno ambiente de trabalho, ainda mais sem que eu pudesse fazer algo para tentar evitar. Mesmo aprovando a ausência de Mica, uma pequena parte de mim não conseguiu deixar de sentir preocupação e culpa por seu sumiço. Será que ele havia feito alguma loucura? 
- Ainda bem – sussurrei, voltando a afundar meu rosto na curva perfumada de seu pescoço – Foi melhor assim. 
- Não, não foi – Thur rosnou, balançando negativamente a cabeça – Ele devia ter sido homem pelo menos uma vez na vida e ter aparecido. Eu o ensinaria a nunca mais agir feito um imbecil, e a cada vez que ele se olhasse no espelho e visse o estrago que minhas mãos causariam em sua arcada dentária, ele se lembraria nitidamente de mim. 
- Calma, não fala assim – falei tentando acalmá-lo, acariciando seu peito, e senti suas mãos se fecharem em punhos – Não vamos perder a cabeça, por favor. 
- Espere só até toda essa turbulência passar – ele disse, com os músculos tensos e o olhar distante, porém afiado como uma navalha – Ele ainda vai ter muitos pesadelos comigo. 
- Thur, olha pra mim – pedi, desaprovando toda aquela raiva crescendo dentro dele, e virei seu rosto até que seus olhos vingativos fitassem os meus – Se acalma, por favor… Vamos esquecer tudo isso, fingir que ele nunca existiu e virar essa página, está bem? 
Ele me encarou por alguns segundos, com a expressão impassível, até que eu lhe dei um selinho demorado e seus músculos começaram a relaxar gradativamente. 
- Eu tenho tanta raiva dele… – Thur soprou, fechando os olhos por um momento e logo depois voltando a me olhar - Por ter te enganado durante todos esses meses, te fazendo de amante, te prendendo a ele, enquanto você podia ter sido minha… 
 minha… Isso me envenena. 
- Eu sei – assenti, com o rosto muito próximo ao dele, e um sorrisinho desanimado se formou em meu rosto – Eu sei como você se sente, acredite… Sei que é difícil controlar a raiva, mas pense que nós também o machucamos. 
- Não foi planejado, Roberta – ele retrucou, adotando um tom de voz menos agressivo – As coisas foram muito rápidas e loucas entre a gente, não foi algo que pudéssemos ter evitado. 
- Mesmo assim, Thur – insisti, desviando meus olhos dos dele para baixo – Nós estamos errados também, e teremos de pagar um certo preço por isso, querendo ou não. 
- Nada que ele faça vai tirar você de mim, justo agora que eu te consegui do jeito que eu quero – Thur afirmou, olhando fundo em meus olhos e segurando meu rosto com as duas mãos – Deixe que ele venha… Eu vou estar esperando. 
Olhei fundo em seus olhos sinceros, sentindo meu autocontrole desmoronar, e um sorriso grato se formou em meu rosto. Confesso que por um momento, meus olhos lacrimejaram, porém agora obviamente de felicidade. A cada dia eu me dava mais conta de que Thur não podia ser de verdade. Em algum momento, eu descobriria que ele era um andróide ou um alienígena. Ou talvez apenas um sonho bom, do qual eu jamais queria acordar. 
- Obrigada por não ter desistido de mim – sussurrei, fazendo carinho em seu rosto e vendo-o dar seu típico sorriso enviesado – Se eu não tivesse você, acho que estaria sozinha e completamente perdida agora. 
- Eu sabia que um dia você ia me agradecer por ter sido tão insistente – ele piscou, fazendo-me rir um pouco. 
- Preciso aprender a não duvidar de você – falei, dando-lhe um beijinho de esquimó e sentindo-o morder meu lábio inferior demoradamente. Ele não desgrudou sua boca da minha, iniciando mais um beijo intenso, e eu acariciei sua nuca, sentindo-o fazer o mesmo enquanto sua outra mão apertava minha cintura. 
Incrível como tudo parecia estar perfeito quando ele me beijava daquele jeito. Ele realmente devia ter algum super poder. 
Uma música baixa começou a tocar no andar de cima após alguns minutos, e eu demorei para me dar conta de que a fonte do som era meu celular. 
- Não vou deixar você atender – Thur resmungou, com os lábios rentes ao meu, e eu soltei um risinho divertido. 
- Deve ser minha mãe – sussurrei, levando minhas mãos até seu peito e me afastando, mesmo que contra a vontade dele – Ela pode ficar preocupada se eu não atender. 
Ele bufou, cerrando os olhos para mim, e eu lhe mandei um beijinho enquanto subia até meu quarto. Peguei meu celular, que estava sobre a cama, e olhei rapidamente para o visor. 
Franzi a testa, e imediatamente, meu sorriso se esvaiu assim que li o nome de Mica na tela. 
Fiquei encarando seu nome no visor, totalmente sem reação, mas apesar de minha hesitação, ele não desistiu e continuou esperando que eu o atendesse. Nada que me surpreendesse, afinal, ele estava morrendo de ódio de mim e deveria estar disposto a tudo para me infernizar. Aguardar alguns segundos para ser atendido não o mataria. 
Respirei fundo, me preparando para encarar a situação como ela devia ser encarada: com maturidade. Fechei os olhos por um momento, tomando coragem, e deslizei o slide, atendendo a chamada. Conduzi o aparelho ao ouvido, sentindo minha garganta se fechar, e apenas esperei. 
- Roberta? – a voz cortante de Mica rosnou, e eu mordi meu lábio inferior, muito nervosa. Eu precisava dizer algo, mas estava tão assustada que não sabia se conseguiria. 
- Sou eu – respondi, abrindo os olhos e sentindo minhas mãos tremerem um pouco de medo; obviamente, não permiti que meu leve temor ficasse explícito em minha voz – O que você quer? 
- Me encontre em meu apartamento daqui a uma hora – ele disse, ríspido, e eu arregalei os olhos, assustada – Vamos colocar um ponto final nisso. 
Não consegui dizer nada, sentindo meu coração bater muito forte e bombear adrenalina para todos os cantinhos de meu corpo. 
Vamos colocar um ponto final nisso. O que exatamente ele queria dizer com aquilo? 
Ignorando meu silêncio, Mica aguardou alguns segundos antes de simplesmente desligar. Eu não esperava nenhum tipo de despedida, de qualquer maneira. Mantive o celular próximo de meu ouvido por um tempo, até minha mão cair sobre meu colo num movimento mecânico. 
Sim, eu confesso. Eu estava um pouco apavorada. 
Com que cara eu desceria as escadas e olharia para Thur? Será que eu seria capaz de esconder minha insegurança e arrumar uma desculpa para que ele fosse embora antes de eu precisar encontrar Mica? 
Não, disse a mim mesma. É melhor que ele saiba, para a minha própria segurança. Seria arriscado demais ir totalmente sozinha até o seu apartamento sem ao menos avisar alguém de meu paradeiro. Eu não conhecia aquele Mica, não podia prever o que ele seria capaz de fazer comigo. 
Mas de uma coisa eu sabia. Estava na hora de resolver aquela situação. 
Mais uma vez, eu respirei fundo, tentando disfarçar minha expressão perplexa, e me levantei. Caminhei lentamente até as escadas, e desci os degraus no mesmo ritmo, sentindo minhas pernas um tanto bambas. 
- Era ela? – Thur perguntou, porém assim que me aproximei e ele pôde me ver melhor, seu rosto ficou sério – Nossa, você tá pálida… O que aconteceu? 
Hesitei por alguns segundos antes de falar. Somente agora eu estava realmente absorvendo o que havia acontecido. 
- Era o Mica – respondi, porém não deixei que sua expressão, agora um misto de surpresa e indignação, me desencorajasse – Ele quer que eu vá até o apartamento dele daqui a uma hora.
- 
O quê? – ele exclamou, revoltado, e eu me mantive imóvel – No apartamento dele? Mas o que ele… Você vai? 

- Thur, você sabe que fugir não é certo – suspirei, olhando-o com seriedade – Eu entendo que ele queira resolver tudo, e concordo que quanto mais rápido isso aconteça, melhor. 
- Resolver tudo como,
 Roberta? – Thur perguntou, sem entender – Ele vai pedir desculpas por ter te feito de amante por todos esses meses e o que mais? Eu não quero você sozinha com ele naquele apartamento, pode ser perigoso. 
- Acha que eu não sei disso? – perguntei, e ele respirou fundo, passando uma mão nervosamente pelos cabelos – Mas eu preciso resolver logo essa situação e terminar com essa novela de uma vez por todas.

Thur me encarou, parecendo um pouco mais resignado, e se levantou, caminhando até mim devagar. Ele me abraçou apertado, como se quisesse me proteger de alguma coisa, e eu o apertei com a mesma força em meus braços.

- Eu tenho medo de deixar você sozinha com ele – ouvi sua voz murmurar, e suspirei baixo – Tenho medo de que ele perca a cabeça e…

- Eu também tenho – o interrompi, sem querer ouvir o fim de sua frase, erguendo meu rosto até poder ver o dele – Mas eu preciso ter um pouco de coragem, pelo menos uma vez na vida, para fazer o que é certo. Eu quero ajeitar as coisas,
 Thur. Tudo está uma bagunça, eu não agüento mais essa situação. Eu vou enfrentar Mica hoje, assim como vou abrir o jogo para minha mãe amanhã. Não quero mais ter que mentir para ela nem para ninguém. 
- Você vai contar a ela? – ele perguntou, surpreso, e eu assenti com firmeza – Tem certeza?

- Tenho – assenti, mas preferi voltar a me concentrar no assunto mais urgente – E então… Você pode me levar até o prédio dele hoje?

Thur me olhou com pesar, numa súplica muda para que eu desistisse de ir, mas eu não me deixei atingir. Mantive minha expressão firme, e após alguns segundos, vendo que eu não cederia, ele apenas respirou fundo, fechando os olhos em tom de derrota.

- Não o deixe encostar um dedo em você – ele disse, resignado e enfurecido ao mesmo tempo – Fale o que tiver pra falar, ouça o que quiser ouvir e saia. Entendeu?

- Ele não vai fazer nada – falei, porém havia uma certa insegurança dentro de mim. Como não ficar insegura diante daquele outro
 Mica e de todo o seu rancor? 
- Como você pode ter certeza? –
 Thur questionou, me olhando com o rosto sério, e eu hesitei antes de responder. 
- Eu não tenho… Mas é o que eu espero.

Thur sustentou meu olhar por alguns segundos, e pela primeira vez, eu vi uma dose considerável de medo em suas íris. Mesmo sem poder confirmar minha hipótese, tive certeza de que seus olhos eram uma espécie de reflexo dos meus, igualmente inseguros diante do que nos aguardava.

Lá estava eu novamente… Temendo pelo que nos aconteceria.

Capitulo 32 parte 4-O amor e o Ódio

Acordei por volta de uma da tarde, devido aos roncos de meu estômago vazio desde a manhã anterior, e decidi me arrastar até a cozinha para resolver aquele problema. Eu não botava muita fé de que fosse conseguir digerir bem qualquer tipo de alimento, mas eu precisava tentar, e agradeci profundamente por encontrar comida congelada no freezer. De comer, relativamente gostoso e prático. Era tudo o que eu queria.
Sentei no sofá com meu prato no colo, com a TV ligada apenas para me tirar do silêncio que imperava na casa. Apesar de estar realmente faminta, comi devagar, com os olhos vagando pela TV, sem exatamente enxergar alguma coisa. Minha cabeça estava pesada pelas poucas horas de sono e muitas de esforço, meus olhos estavam levemente inchados, meu cabelo estava uma zona e eu me sentia totalmente estranha. Uma bagunça, para ser mais precisa.

Estava caminhando até a cozinha para deixar meu prato vazio na pia quando ouvi a campainha tocar. Franzi levemente a testa. Não podia ser Thur, poucos minutos haviam se passado depois da uma da tarde. Me desfiz da louça e rastejei até a porta, abrindo-a e deixando somente uma fresta para que eu pudesse reconhecer o visitante.
- Roberta? – Sophia chamou, inclinando a cabeça levemente para o lado.
- Sophia? - murmurei, abrindo a porta normalmente ao me dar conta de quem era – O que você tá fazendo aqui?
- Tem certeza de que não sabe? – ela respondeu, olhando-me com a expressão um pouco triste. Ela sabia.
- O Thur falou com você? – chutei, e Sophia assentiu com um sorrisinho calmo - O que ele te disse?
- Hm… Posso entrar primeiro? – ela pediu sem jeito, e só então eu percebi que ainda não a havia chamado para dentro.
- Desculpe – falei, dando passagem para que ela entrasse, e nos sentamos no sofá. Assim que nos acomodamos, Sophia começou a explicar.
- Ele me chamou na hora do intervalo, disse que precisava conversar comigo. Eu concordei, já imaginando que fosse algo sobre você, ainda mais vendo que você tinha faltado. Fomos até o laboratório, e bem… Ele me explicou tudo. Desde coisas que eu já sabia até… Os recentes acontecimentos. E eu decidi vir te ver, antes mesmo de ele me pedir pra fazer isso. Eu não podia te deixar sozinha justo agora.
Ela soltou um suspiro baixo ao finalizar sua explicação, e eu abaixei meus olhos dos dela para o chão, sem saber o que pensar da atitude de Thur. Eu não esperava que ele fosse se preocupar tanto comigo àquele ponto. Sem dúvida, foi um gesto muito gentil de sua parte, e eu não poderia deixar de agradecê-lo mais tarde.
- Obrigada, Sophia – foi só o que consegui dizer, olhando-a vagamente – Até que eu estou… Bem.
- Roberta, eu te conheço – ela murmurou, segurando uma de minhas mãos entre as suas – Sei que você deve estar se crucificando e se repugnando pelo que aconteceu… Mas eu não posso permitir isso, e sei que o Thur concorda comigo. É normal que você fique abalada, mas…
- É sério, Sophia – a interrompi, sem querer ouvir discursos repetitivos – Eu estou me culpando sim, não vou negar, afinal, eu errei. Mas eu pensei que fosse ser bem pior. De verdade, eu estou bem. Não… Dói.
- Não? – ela perguntou, delicadamente surpresa, e eu neguei com a cabeça, vendo-a disfarçar um sorriso aliviado – Isso é… Bem, isso é ótimo!
- Você acha? – falei baixo, vendo Sophia franzir a testa – Tudo desmoronou sobre a minha cabeça e eu não consigo sentir nada… Você acha isso ótimo?
- Tudo desmoronou sobre a sua cabeça? – ela repetiu, com a expressão duvidosa – Por que você pensa assim?
- Minha vida está toda de cabeça pra baixo – respondi, encarando-a sem esconder a confusão em meu olhar – Mica descobriu tudo, vai me odiar pra sempre, vai fazer de tudo pra me separar do Thur e ferrar com a minha vida e você ainda me pergunta por que eu penso assim?
- Deixe que ele tente – ela deu de ombros, olhando-me com uma serenidade que eu invejei – Você e o Thur são mais fortes do que isso, eu tenho certeza. Eu não acreditava nessa intensidade toda entre vocês, mas hoje, enquanto ele me contava tudo o que aconteceu… Foi como se um outro Aguiar tivesse surgido bem diante dos meus olhos. Ele te ama, Roberta. E é pra valer.
- Pode parecer esnobe da minha parte, mas eu sei – assenti, esboçando um sorriso ao ouvi-la falar dele daquela maneira – Quanto a ele, eu me sinto muito segura.
- E com razão. Ele não vai se deixar influenciar por nenhum tipo de armadilha que o Mica possa aprontar… Isso foi até uma das coisas que nós citamos enquanto conversávamos hoje – ela continuou, me observando distraidamente – O ponto mais frágil, que ele provavelmente vai querer atacar, é o sigilo da relação de vocês. Na minha opinião, é a única forma que ele tem de afetar vocês dois.
- Eu tenho certeza de que ele vai dedurar o Thur na diretoria o mais rápido possível – concordei, fechando os olhos por um momento; as conseqüências dos futuros atos de Mica me traziam uma sensação de asfixia – Além de fazê-lo perder o emprego, minha mãe vai ser chamada na escola e vai descobrir tudo da pior maneira.
- Isso é verdade, infelizmente – ela disse, pensativa, inclinando a cabeça levemente para o lado com o olhar vago – O Thur já não deve ter uma boa moral no histórico da escola, mas pelo que ele me disse hoje, o emprego é a última coisa que o preocupa. E quanto à sua mãe… Bem, eu acho que você deveria abrir o jogo com ela antes que a diretora faça isso por você.
Suspirei profundamente, tentando me imaginar contando tudo para minha mãe. Um dos meus piores pesadelos, sem dúvida. Ela provavelmente acabaria comigo e expulsaria de casa o que sobrasse de mim. Era um beco sem saída.
- Talvez você esteja certa – murmurei, concordando com uma decisão que provavelmente seria uma das mais marcantes da minha vida – Eu só preciso… Me encontrar no meio dessa bagunça pra poder tomar as decisões certas.
- Eu entendo – Sophia sorriu fraco, erguendo seus olhar de minha mão para os meus olhos - Tudo aconteceu muito rápido, você precisa de um tempo para digerir as coisas.
- É… - suspirei, apertando sua mão e devolvendo seu sorriso – Obrigada por se importar comigo.
- Que tipo de amiga eu seria se não me importasse com você? – ela ergueu uma sobrancelha, me abraçando logo em seguida - Vai ficar tudo bem, confie em mim.
- Assim espero – murmurei, sentindo que talvez nem tudo estivesse tão perdido assim. Depois que minha mãe me expulsasse de casa, o que provavelmente aconteceria quando eu contasse tudo a ela, eu poderia passar um tempo morando com Sophia, mesmo que tivesse que arranjar um emprego apenas para bancar meus gastos na casa. Tudo o que me restaria daquele inferno seriam algumas semanas de colégio até que eu me formasse. Um dia, talvez, se eu realmente me esforçasse, minha mãe me perdoasse por tudo o que fiz, e então tudo estaria resolvido.
- Ele me disse que vem passar a tarde com você hoje – Sophia disse ao se afastar, e eu assenti – Não acha que é arriscado?
- Mamãe vai estar trabalhando, e ele vai embora cedo – falei, e ela assentiu, sem enxergar grandes falhas em meu plano – Vai me fazer bem passar um tempo com ele aqui.
- Sabe… Eu acho que ela vai entender – Sophia suspirou, reflexiva – Não acho que ela vá te expulsar de casa, muito menos pensar que você é uma vadia, como você tanto teme. Sua mãe é bastante mente aberta e compreensiva, não a subestime.
- Tomara que você esteja certa – falei, olhando-a com incerteza – Seria a solução pra quase todos os meus problemas… O apoio dela me daria muita força.
- Eu vou estar certa, você vai ver – ela sorriu ternamente, confiante – Pensamento positivo, por favor, Roberta.
- É fácil falar – soltei um risinho descrente, vendo-a me olhar com censura – Mas eu vou tentar.
- Isso mesmo – Sophia assentiu, fazendo uma cara mandona engraçada – Agora vai se arrumar, seu bofe vai chegar daqui a pouco e você ainda está um trapo.
- Obrigada pela parte que me toca – ironizei, vendo-a me mandar um beijo falso conforme se levantava e me arrastava para o andar de cima. Fui arremessada para dentro do banheiro, onde tomei um banho rápido, porém revigorante. Escovei os dentes e penteei meus cabelos, e quando cheguei ao quarto, Sophia estava sentada sobre a cama.
- Tomei a liberdade de separar suas roupas – ela sorriu, indicando algumas peças sobre a cama, e eu devolvi o sorriso em forma de agradecimento. Eu não estava com cabeça para escolher roupas naquele dia. Vesti minhas roupas íntimas, um shorts branco e uma blusa cinza larga, que deixava um de meus ombros à mostra, e conseqüentemente, uma alça do sutiã preto. Mal terminei, a campainha tocou.
- Será que é ele? – comentei, checando a hora no relógio ao lado da cama - Ainda são quinze pras duas.
- Melhor pra vocês, quinze minutos a mais – Sophia disse, me seguindo até o andar de baixo. Paramos em frente à porta, e eu respirei fundo antes de abri-la.
- Oi, meninas - ele sorriu de uma maneira agradável.
– Oi, Aguiar - Sophia respondeu, simpática, virando-se para mim logo em seguida - Bom… Eu vou deixar vocês ficarem sozinhos agora. Chay deve estar me esperando para almoçarmos juntos.
- Mande um beijo pra ele – falei, abraçando Sophia rapidamente – E obrigada por ter vindo… Você me ajudou muito.
- Que bom - ela murmurou, apertando-me com força antes de me soltar – Tchau, Thur. Cuide bem dela, por favor, senão eu acabo com você, entendeu?
- Pode deixar – ele disse sem nem se abater com a ameaça de Sophia e olhando-me com intensidade. Apenas isso bastou para que eu me arrepiasse por inteiro.
- Entra – falei, quando Sophia já havia se distanciado, e ele obedeceu.
- É bem estranho entrar pela porta, sabia? – o ouvi comentar enquanto eu trancava a porta, rindo baixo – Não é tão emocionante.
- Imagino – falei, aproximando-me dele com um sorrisinho divertido. Fechei os olhos ao senti-lo envolver minha cintura com seus braços, inalando seu cheiro de quem havia acabado de sair do banho, e o abracei pelo pescoço sem pressa. Thur esfregou a ponta de seu nariz no meu devagar, unindo nossas testas e fazendo com que sua respiração quente batesse em meu rosto. Senti meu equilíbrio se prejudicar quando ele beijou o canto de minha boca, e deslizei minhas mãos para seus ombros, aprofundando o beijo com urgência, num claro ato de carência e fragilidade. Ele sorriu após dar passagem à minha língua, e estendeu o beijo por alguns segundos.