sim –
ele cuspiu, com a voz carregada de desdém, e aos poucos meus olhos
foram se enchendo de lágrimas - Você não vale o chão que pisa, garota…
Maldito foi o dia em que eu te deixei entrar na minha vida. Respirei
fundo, tentando organizar minha mente, mas minha cabeça doía tanto que
eu mal conseguia abrir os olhos. Parecia que ele havia rachado meu
crânio ou algo do tipo, pra ser bastante honesta. Mesmo assim, fiz um
esforço, e por mais que minha voz tenha saído baixa, ele pôde me ouvir.
- Vá pro inferno.
- Eu vou… Pode ter certeza disso – ele murmurou, e sua respiração bateu
em meu ouvido, mas por mais que eu sentisse medo, tudo estava girando
demais ao meu redor para que eu pudesse me afastar – Mas vou arrastar
vocês dois comigo.
- Me deixe em paz – pedi, apoiando-me no sofá ao meu lado ao sentir minha cabeça pulsar, e ele soltou um risinho debochado.
- Não posso fazer isso… Tenho uma promessa a cumprir – Mica rosnou ao pé
de meu ouvido, apertando meu braço com tanta força que seus dedos
interromperam minha circulação e fazendo um gemido baixo escapar de
minha garganta – Já se esqueceu dela?
Assim que ouvi suas palavras, foi como se eu tivesse sido arrancada
dali. Eu não estava mais no apartamento de Mica, minha cabeça não doía,
nem sua mão machucava meu braço. Uma brisa suave brincava com meus
cabelos, e um cheiro de mar adentrava minhas narinas, assim como um
magnífico pôr-do-sol era tudo o que eu via diante de mim.
A promessa… Eu me lembrava bem dela. Tão bem que nem me assustei ao
ouvir minha própria voz, junto com a dele, ecoar em minha mente. - Se eu te pedir uma coisa… Promete que vai fazer?
- O que você quiser.
- Por favor, prometa que vai fazer.
- Prometo… Não confia em mim?
- Então me prometa só mais uma coisa… Se um dia eu te machucar… Prometa que vai fazer pior comigo.
- Como assim, Roberta? Como você poderia me machucar?
- Eu só quero que você me dê a certeza de que vou me arrepender
amargamente do dia em que te fizer sofrer… Quero que prometa que não vai
me deixar em paz sem me punir por uma injustiça dessas.
Abri meus olhos, sentindo grossas lágrimas
escaparem por eles, e o chão do apartamento de Mica surgiu em minha
visão. A brisa subitamente parou, e o cheiro do mar sumiu de imediato.
Porém, as vozes em minha cabeça continuaram a reproduzir minha memória,
como se alguém a estivesse sussurrando em meu ouvido.
- Você não me faria sofrer… Faria?
-
Eu me lembro… – soprei, lutando contra o som das ondas do mar quebrando
próximas à costa. O conflito entre a realidade e a lembrança estava me
atordoando demais para que eu conseguisse dizer algo mais.
- Ótimo… Melhor não se esquecer dela tão cedo – ele sussurrou, fitando
meu rosto desolado antes de me soltar – Caso contrário… Vai ser um
prazer refrescar a sua memória.
Por alguns segundos, tudo que fui capaz de fazer foi encarar o chão,
paralisada, até conseguir levar minhas mãos trêmulas ao rosto, cobrindo
minhas lágrimas conforme eu corria desesperadamente até a saída do
apartamento. Mica não tentou me impedir, e sem nem ver o que estava
fazendo, girei a maçaneta e abri a porta, mas quando fiz menção de
correr, meu corpo colidiu contra o de alguém do lado de fora. Antes
mesmo que eu pudesse reconhecer a pessoa, seus braços me envolveram e
sua voz alarmada perguntou:
- O que aconteceu?
- Thur… – soprei, agarrando sua camiseta e afundando-me em seu peito. Eu
não tive forças para dizer nada; estava tão nervosa e com tanta dor que
mal conseguia pensar direito.
- Olá, Aguiar – ouvi a voz de Mica cumprimentar, transbordando uma falsa
simpatia. O leve sadismo em seu tom me fez encolher meu corpo.
- Vamos embora – Thur me disse, após alguns segundos em silêncio, e me virou sutilmente na direção das escadas.
- A conversa ainda não terminou – Mica impôs, voltando à sua postura
agressiva, porém não foi necessário muito tempo para que ele recebesse
uma resposta à altura.
- Estou pouco me fodendo para o que você acha – Thur rosnou,
pronunciando cada palavra com todo o seu desprezo e ódio - Pra mim, ela
não deveria nem ter começado.
Mica pareceu intimidado demais para retrucar, e nós não o demos tempo
para isso, pois em poucos segundos já estávamos descendo os degraus rumo
à saída.
- Nunca.
-
Mas o que… – Andy disse, levantando-se assim que nos viu, e eu imaginei
que Thur não deveria ter sido muito diplomático há alguns minutos,
quando entrou.
- Não enche – Thur o interrompeu, caminhando em passos largos até a rua e
quase me carregando pelo caminho, pois minhas pernas insistiam em
fraquejar – Roberta, eu preciso que você fique acordada, está bem?
Meus olhos se fecharam sozinhos assim que tudo ao meu redor girou mais
uma vez, me causando um certo embrulho no estômago. Eu me sentia numa
montanha-russa após um farto almoço. Engoli em seco, sentindo minha
cabeça latejar, e me deixei conduzir até o carro. Seria possível
que Mica tivesse conseguido me afetar tanto com aquele tapa ou tudo era
apenas efeito psicológico causado por meu nervosismo?
- Casa… – balbuciei assim que ele me sentou e me ajudou com meu cinto de
segurança, apertando seu pulso de leve para que ele prestasse atenção
no que eu queria dizer – Eu… Vai me levar… Você vai…
- Claro que não, Roberta, eu vou te levar pra um hospital – Thur
respondeu, categórico – Você não está conseguindo nem formar frases!
- Não, eu… Quero ir pra casa – insisti, respirando fundo e conseguindo pensar com mais clareza – Eu só fiquei nervosa demais…
- Pode ser algo sério – ele resistiu, preocupado, mas eu não o deixei vencer.
- Eu só estou um pouco atordoada, não se preocupe… Só preciso ir para
casa me acalmar – falei, dessa vez com mais firmeza, já me dando conta
de que o perigo estava longe outra vez - Por favor, é só o que eu peço.
Apesar de a dor em minha cabeça ter pulsado logo após minhas palavras,
pareceu funcionar. Thur sustentou meu olhar por alguns segundos,
indeciso, e fechou a porta, entrando pelo lado do motorista sem demora.
- Só não durma – ele disse, ligando o carro e respirando fundo antes de
acelerar. Assenti levemente, repousando minha cabeça no encosto do
banco, e fechei os olhos para aliviar a dor.
Dois segundos depois, um alívio imenso inundou minha mente, fazendo com que o barulho do motor do carro sumisse e eu apagasse.
- Eu disse pra não dormir, sua… Coisa teimosa.
Abri os olhos, sentindo minha cabeça e pálpebras pesadas. Pisquei
algumas vezes para focalizar o borrão azul e branco à minha frente, e
fixei meu olhar no de Thur assim que consegui definir onde seus olhos
estavam.
- Me desculpe – murmurei, e pigarreei ao ouvir minha voz completamente
rouca. Olhei ao meu redor, reconhecendo meu quarto, e só então me dei
conta de que estava deitada em minha cama, com Thur sentado ao meu lado.
- Como você está? – ele perguntou, enquanto eu me sentava devagar e levava as mãos à cabeça, massageando-a – Doendo muito ainda?
- Não… Quase nada – menti, dando um sorrisinho que não deve ter sido
muito convincente e sentindo a dor aumentar a cada vez que piscava –
Nada que um analgésico não resolva.
Thur soltou um suspiro discreto, me olhando com intensidade, e eu insisti no sorriso. Não deu certo.
- O que aconteceu naquele apartamento, Roberta? – ele indagou, com a voz preocupada – O que ele fez?
Respirei fundo, abandonando o falso sorriso e desviando meu olhar do
dele para pensar um pouco. Por que eu deveria mentir ou omitir algo? Eu
estava cansada disso, e sabia que não precisava me preocupar quanto a
ser sincera com ele.
- Ofensas, ameaças… Até aí, nada que eu já não esperasse – respondi, um
tanto hesitante, e voltei a olhá-lo – Mas eu acabei perdendo a cabeça e
dei um tapa nele.
- E ele revidou – Thur deduziu, franzindo a testa e cerrando os olhos em
indignação – Que belo merda ele é. Eu ainda vou acabar com esse put…
- Ele vai se mudar, me parece – o interrompi, tentando não trazer de
volta à minha mente aquela cena horrível – Não consegui perguntar para
onde, mas tenho um palpite.
- Leeds – ele disse, e eu assenti – Espero que ele se mude amanhã mesmo, e fique pra sempre… Bem, com a outra lá.
Fingi concordar com suas palavras, mas a maldita promessa me atingiu em
cheio. Mesmo que não conseguisse nos causar nenhum dano, o que não me
parecia muito provável, Mica ainda faria o que estivesse ao seu alcance
para nos prejudicar.
E eu tinha uma certa noção de por onde ele começaria.
- Que horas são? – perguntei, um tanto assustada, e olhei para o relógio
no criado-mudo – Sete e quarenta e dois! Minha mãe vai chegar daqui a
pouco!
- Eu sei, já estou indo embora – Thur me acalmou, ainda reflexivo diante
do que eu havia dito sobre minha conversa com Mica – Você vai contar
tudo a ela hoje?
Fechei meus olhos, esfregando meu rosto com as mãos e tentando não ficar
nervosa diante do que ainda tinha que fazer. Eu não podia mais perder
tempo. Se antes mesmo de todos os acontecimentos daquela tarde eu já
tinha certeza de que Mica agiria rápido, agora eu já estava preparada
para que o dia seguinte fosse a confirmação de minha teoria.
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