Respirei fundo pela enésima vez, fechando
meus olhos por alguns segundos. Apesar da leve brisa que entrava pela
janela conforme Thur virava na rua de Mica, eu estava me sentindo um
tanto sufocada dentro de seu Porsche, e ele obviamente estava notando
isso. Eu só não estava sendo bombardeada com palavras de conforto ou
algo parecido porque ele estava ainda mais nervoso para sequer abrir a
boca.
- Eu vou com você – ele disse num tom autoritário, enquanto estacionava
na frente do prédio. Revirei os olhos. Era a quinta vez que eu teria que
lhe explicar por que aquilo simplesmente não poderia acontecer.
- Eu entendo que você esteja preocupado, mas… Nem pensar – falei, com a
voz calma, e o vi bufar em desaprovação – A única coisa que vai
acontecer se você for comigo é uma briga. E não foi pra isso que eu vim.
- Que pena – Thur sorriu, cínico, e eu lhe lancei um olhar de censura – Desculpa, você sabe que eu não sei ser diplomático.
- E assim como eu, você sabe que um punho no fundo da garganta dele não
vai resolver nosso problema – lembrei, cerrando meus olhos e vendo-o
finalmente me olhar após desligar o carro – Por esse motivo, você fica
aqui embaixo.
Thur sustentou meu olhar por alguns segundos, e depois desviou o seu,
demonstrando seu descontentamento com aquela situação. Ele segurou minha
mão, apertando meus dedos com certa força, e eu suspirei, com o coração
um tanto acelerado. Meu Deus, ele estava me deixando ainda mais nervosa
com aquela agonia toda.
- É pra tomar cuidado, ouviu? – ele murmurou, ranzinza, fitando nossas mãos com seriedade – E não demore, senão eu…
- Aguiar, chega – o interrompi, vendo-o voltar a me encarar com os olhos
surpresos e franzir levemente a testa, a cada segundo mais inquieto –
Você já repetiu esse discurso pelo menos umas cinco vezes! Vai dar tudo
certo, pense positivo junto comigo, pode ser?
Thur suspirou profundamente, e eu coloquei minha outra mão sobre a dele,
baixando meu olhar até elas. Por um instante, a pequena cicatriz que eu
havia deixado em seu braço há alguns meses prendeu minha atenção. Já
havíamos passado por tanta coisa… Nunca pensei que viveria um momento
como aquele.
- Desculpe, eu sei que estou sendo chato… Mas é que eu não estou
gostando nada disso – Thur suspirou, e eu levei uma de minhas mãos até
seu ombro, massageando-o e sentindo seus músculos rígidos ali – E não
estou tendo sucesso nenhum em tentar disfarçar.
- Confie em mim – pedi, olhando-o com uma convicção que eu fingia ter – Vai ficar tudo bem.
Ele me encarou por alguns segundos, em dúvida, mas logo assentiu, mesmo
que contra sua própria vontade. Ele sabia que não adiantaria tentar me
convencer a voltar para casa sem falar com Mica. Acariciei levemente seu
rosto, sorrindo para ele, e deixei que ele se aproximasse o suficiente
para tocar meus lábios com os seus.
- Tá bom, eu te deixo ir agora… Mas vai logo, antes que eu me arrependa
– Thur sussurrou após alguns minutos, afastando seu rosto do meu com a
expressão extremamente contida a ponto de parecer vazia aos olhos de
alguém menos íntimo - E volte logo.
- Eu vou voltar – falei, abrindo a porta e saindo do carro – Fique calmo, professor.
- Impossível – ele negou, encostando a testa no volante, e eu respirei fundo antes de caminhar até a portaria do prédio.
- O sr. Borges já a está aguardando – Andy disse, com sua típica voz
cordial, assim que cheguei à portaria. Engoli em seco, sabendo que
aquela era a última vez em que eu entraria naquele edifício, se tudo
fluísse de acordo com meus planos. Disfarcei o turbilhão de pensamentos
que colidiam dentro de minha cabeça e assenti com um sorrisinho tenso,
dirigindo-me à escadaria. Subi os degraus devagar, tentando imaginar
como ele agiria (e eu também) quando chegasse ao meu destino, e somente
quando parei à porta de seu apartamento foi que todas as especulações
enfim sumiram de minha mente, dando total lugar à insegurança.
Ouvi passos cada vez mais próximos do outro lado da porta. Ele estava vindo me receber.
Num ato instintivo, quase dei meia volta e saí correndo. Mas, ao
contrário do que meus instintos ordenavam, respirei fundo mais uma vez e
aguardei até que a maçaneta girasse e a porta se abrisse.
O silêncio que se instalara em meus ouvidos assim que nossos olhares se
encontraram me fez pensar por um momento que minha cabeça explodiria.
- Você veio – Mica murmurou, com a voz fria, e eu senti um arrepio
percorrer meu corpo inteiro. Quem era aquele homem que eu um dia pensei
conhecer? Definitivamente, esse não era o mesmo.
- Por que não viria? – perguntei, tentando parecer um pouco mais firme
do que realmente estava, e ele ergueu as sobrancelhas rapidamente,
ponderando minha indagação. Não gostei nem um pouco daquilo.
Sem dizer mais nada, ele deu espaço para que eu entrasse em seu
apartamento, e eu o fiz, parando a poucos passos da porta e virando-me
em sua direção. Nos poucos segundos que tive para olhar ao meu redor,
tudo que vi foram os móveis, desprovidos de qualquer decoração, e várias
caixas empilhadas por toda a sala, o que para mim só significava uma
coisa.
Mudança.
- Como você pode ver, eu ainda tenho muito o que fazer por aqui – ele
disse, lançando um rápido olhar para as caixas e logo depois me
encarando – Então pretendo terminar logo com essa conversa.
- Que bom que concordamos nesse ponto – assenti, sustentando seu olhar
sem um mínimo sinal de fraqueza – Quanto mais rápido resolvermos nossas
pendências, melhor para todos.
- Ele te trouxe aqui? – Mica perguntou, e o vazio de emoções em seu
rosto ao mencionar Thur me impressionou – Está te esperando lá fora?
- Isso não importa – respondi, um tanto incomodada com sua curiosidade
mórbida – O que realmente importa agora é que eu quero terminar essa
conversa de uma forma pacífica.
- Pacífica? – ele repetiu, num risinho medíocre, e eu não demonstrei
emoção alguma – Depois de tudo que aconteceu, você ainda espera que eu
seja pacífico?
- Se eu estou sendo pacífica, por que você não pode ser? – falei
calmamente, encarando-o com firmeza e vendo sua hostilidade fraquejar –
Nós dois estamos manchados nessa história,Mica. Não banque o bonzinho,
você não vai conseguir nada com isso.
- Você não entende – ele murmurou, balançando negativamente a cabeça de
uma maneira um tanto perturbada, e pude vê-lo lacrimejar – Você nunca
vai entender. Ele te cegou… Te envenenou contra mim.
- Não seja ridículo – rosnei, vendo-o respirar fundo e me fitar com os
olhos vidrados, denunciando que lentamente ele ia perdendo o controle
sobre si – Eu não vim aqui para ouvir seus motivos, porque pelo que
estou vendo, você também não quer ouvir os meus. Explicações não vão
mudar os fatos, pelo menos não para mim. E isso basta pra que resolvamos
logo essa situação e sigamos com nossas vidas.
- Há quanto tempo? – Mica indagou, dando um passo em minha direção, e
pela expressão ressentida em seu rosto, pude ver que ele não havia
entendido uma palavra do que eu havia acabado de dizer – Há quanto tempo
vocês dois estão juntos?
Suspirei profundamente, encarando-o sem uma postura muito bem definida, e
alguns segundos depois ele repetiu sua pergunta, num tom um pouco mais
enérgico.
- Há quanto tempo, Roberta?
- Desde o acidente de carro – respondi, fechando meus olhos por um momento, assustada com sua voz exaltada – Uns dois meses.
Encarei o chão por alguns segundos, ouvindo apenas a respiração pesada
de Mica, mas logo ergui meu olhar até o dele. Seu rosto estava
paralisado, em choque diante de minha resposta; seus olhos estavam
arregalados, suas sobrancelhas franzidas e seus lábios entreabertos. Ele
deu mais um passo na minha direção, respirando fundo, e eu não consegui
esconder o pânico em minha expressão ao vê-lo erguer sua mão como se
fosse me dar um tapa, porém não realizando nenhum movimento. Seus dedos
se fecharam, formando um punho, e ele contraiu seus lábios, tremendo
levemente e me encarando com os olhos úmidos e cheios de ódio.
Pela primeira vez na vida, eu senti um olhar verdadeiramente assassino
sobre mim. Ele queria me matar, e o faria se tivesse coragem suficiente.
Felizmente, ou não, ele não tinha.
- Por que você fez isso comigo? – ele disse com a voz embargada,
abaixando seu punho e inundando seu olhar com mágoa – O que… O que eu
fiz de errado?
- Eu não queria fazer, eu juro… – suspirei, sentindo-me um pouco mais
aliviada ao ver a cólera agora controlada em seus olhos, porém a mágoa
neles fazia uma enorme culpa formigar sob minha pele e influenciar meu
tom de voz – Mas foi inevitável.
- Você acha que isso me convence? – ele explodiu, enraivecido, e se
afastou um pouco de mim, passando as mãos compulsivamente pelos cabelos –
Eu posso ter sido idiota o suficiente pra não perceber que estava sendo
traído, mas eu não vou mais admitir que você pise em mim!
- E você? Não pisou em mim também? – rebati, irritada com sua atitude
mesquinha – Acha que pode me fazer de amante sem que eu sequer soubesse
da existência de sua noiva desde o começo e simplesmente sair ileso, se
fazendo de bom moço ainda por cima?
- Eu fiz isso porque te amo! Eu fui burro o bastante pra me apaixonar
por você! – Mica gritou, e agora as lágrimas rolavam por seu rosto
enfurecido conforme ele voltava a se aproximar de mim – Eu já devia
saber que você não vale porra nenhuma e não passa de uma vadiazinha que
botaria um belo chifre na minha cabeça assim que tivesse a chance!
- Chega! – exclamei, e sem sequer conseguir pensar, atingi seu rosto com
um tapa, usando toda a força que pude reunir – Eu não vim aqui pra te
diminuir, e não admito que você faça isso comigo!
Mica levou uma mão à parte atingida de seu rosto, pego de surpresa com
minha agressão, e sem nem hesitar, devolveu o tapa com toda a sua força,
fazendo-me cambalear para o lado, totalmente desnorteada e com muita
dor. Levei minhas mãos à cabeça, fechando os olhos e sentindo tudo girar
ao meu redor, e novamente o gosto de sangue surgiu em minha boca.
- Eu te diminuo
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