Estava
em alguma outra dimensão, alienada demais com os milhares de
pensamentos em minha mente para ter noção do tempo, quando ouvi a
maçaneta da porta girar. Meu coração pareceu parar por um momento,
congelado de nervoso.
- Boa sorte – sussurrei para mim mesma, respirando fundo e ficando de pé a tempo de ver mamãe entrar. Era agora ou nunca.
- Oi, filha! – ela sorriu, trancando a porta por dentro – Você parece melhor… Como foi a sua tarde?
Sinceramente?
- Já tive melhores – respondi, sendo honesta de certa forma, sem
conseguir retribuir o sorriso. Notando meu jeito estranho, mamãe parou a
alguns passos de mim, me olhando com um pouco de receio.
- O que houve? – ela perguntou, colocando sua bolsa no sofá – Que carinha é essa?
Respirei fundo mais uma vez, necessitada de oxigênio para me acalmar, e dei o primeiro passo rumo ao meu desastre.
- Mãe… Eu tenho uma coisa pra te falar – comecei, sentindo meu coração
disparar e meu corpo esquentar de tão nervosa que estava.
- Ah, não… – mamãe suspirou, levando as mãos ao peito com a expressão um tanto horrorizada – Você está grávida!
Franzi a testa, sem compreender seu pavor antecipado, e tratei de desfazer o mal entendido.
- Não, mãe, não é isso…
- Está usando drogas? – ela chutou novamente, mantendo o olhar
aterrorizado, e se não estivesse tão nervosa, teria rido horrores.
- Claro que não! – falei, revirando os olhos.
- Não me diga que está pensando em abandonar os estudos e ir morar com
um namoradinho do colégio num trailer no Texas! – ela disse, ainda mais
chocada, e eu me irritei.
- Será que eu posso falar o que é de uma vez ou você vai continuar com
esses palpites sem sentido? – bufei, e ela abandonou a expressão de
horror, adotando uma séria – Obrigada.
- Desculpa, filha… É que eu me assustei com esse seu jeito sério – ela
murmurou, e eu esbocei um rápido sorriso compreensivo – Pode falar,
querida, o que foi?
Hesitei por alguns segundos, ainda ponderando a hipótese de desistir,
mas eu sabia muito bem que não podia. Ou ela saberia por mim ali e
agora, ou teria uma bela surpresa na manhã seguinte, na sala da
diretora. E eu preferia cometer pelo menos um ato de honestidade em
consideração a ela.
- Eu… Estou namorando – foi só o que consegui dizer, fechando os olhos
por alguns segundos e me amaldiçoando por minha falta de coragem de
completar a frase.
- Oh, meu Deus! – ela sorriu, parecendo aliviada – Era só isso, meu amor? Que susto! Pensei que era algo mais sério!
Abri os olhos, vendo-a me encarar com alegria, e esperei que ela fizesse
a pergunta que provavelmente reverteria toda aquela situação.
- Quem é o sortudo?
Sustentei seu olhar, engolindo em seco. Não havia mais como fugir.
- Meu professor de biologia – respondi, completamente apavorada.
Mamãe não esboçou reação. Não a princípio.
Meus
olhos estavam bem abertos e fixos em seu rosto, agora com um sorrisinho
congelado que aos poucos se desfazia. Minha garganta fechou, meu
coração batia freneticamente, minha respiração havia parado por alguns
segundos, mas tudo que eu conseguia fazer era encarar mamãe, esperando
que a ficha caísse.
Imaginei que ela levaria algum tempo para absorver o impacto.
- Uau… Isso… Isso é verdade? – ela riu, bastante chocada, mas ainda não
havia repreensão em sua voz – Você está mesmo namorando seu professor?
Nervosa demais para abrir a boca, apenas assenti.
O sorriso de mamãe não desapareceu de vez assim que reafirmei minha
revelação, como eu imaginei que desapareceria. Por um segundo, cogitei a
hipótese de minha mãe estar usando drogas.
- Quantos anos ele tem? – ela perguntou, cerrando os olhos de uma forma
interessada. O que diabos estava acontecendo? Cogumelos alucinógenos no
cardápio da empresa?
- Trinta – respondi, vendo-a assentir devagar, processando a informação,
e a poupei do cálculo - Ele é treze anos mais velho que eu.
Mamãe ficou em silêncio por alguns segundos, e eu não ousei quebrá-lo.
Eu temia ser atacada a qualquer segundo, por isso me mantive na
defensiva. Aquela reação inicialmente conformada não era a que eu estava
esperando, me colocava em território completamente desconhecido.
- Há quanto tempo? – ela indagou, mantendo a bizarra naturalidade – Digo, há quanto tempo vocês estão namorando?
- Quase dois meses – falei, mal conseguindo piscar de tão alerta. Onde
estava o momento em que ela se jogaria sobre mim e arrancaria todos os
meus cílios com uma pinça? A qualquer momento agora, talvez.
- Hm… – ela voltou a assentir, e ergueu rapidamente as sobrancelhas –
Ele é um bom rapaz? Quer dizer… Homem? Argh, isso é esquisito… Você
entendeu.
Franzi a testa, sem saber como respondê-la. Eu estava completamente desprevenida.
- Erm… Que eu saiba, sim – balbuciei, vendo-a me olhar como se
estivéssemos conversando sobre os bíceps do vizinho gostoso – Ele é
bastante, hm… Gentil.
Ah, tá. Gentil não era um adjetivo exatamente abrangente para
descrever Thur, mesmo que ele tivesse seus momentos. Mas tudo bem, eu
estava ocupada demais tentando decifrar a reação de mamãe para pensar
naquilo.
- Isso é bom… Gentileza é importante – ela comentou, aproximando-se de
mim sem pressa, e eu me preparei para perder um braço no maior estilo
Kill Bill ou algo parecido – Imagino que vocês já… Bem, vocês já
dormiram juntos, certo?
- Mãe… Aonde você quer chegar? – perguntei, sem conseguir mais controlar
meu nervosismo e me sentindo horrivelmente desconfortável com o rumo da
conversa – Por que todas essas perguntas? Quer dizer… Eu estava
esperando uma reação muito mais…
- Violenta? – ela completou, esboçando um sorrisinho quase divertido, e
eu apenas pisquei algumas vezes, sem saber o que pensar.
- Talvez – confessei, completamente confusa. Mamãe fechou os olhos por
alguns segundos, soltando um risinho, e segurou minhas mãos, levando-me
para o sofá, onde nos sentamos.
- Eu imagino o quão estressantes esses dois últimos meses devem ter sido
pra você, querida – ela suspirou, colocando minhas mãos entre as suas e
me olhando com compreensão – Mas não precisava ter sido desse jeito.
Fico muito feliz por você ter me contado hoje, foi muito corajoso da sua
parte… No entanto, preciso confessar que já desconfiava de que havia
algo por trás das temporadas na casa da Sophia.
Esbocei um sorrisinho extremamente sem graça, sentindo minhas bochechas
esquentarem, e mamãe me lançou um olhar empático. Aquilo estava
realmente acontecendo ou eu havia desmaiado e estava delirando?
- Nós, mães, criamos nossos filhos para o mundo – ela prosseguiu,
alternando olhares entre nossas mãos e meu rosto – Com você não é
diferente. A cada dia que passa, eu me dou conta de que você é menos
minha e mais sua… A cada dia, o seu espaço e a sua privacidade se tornam
muito maiores do que eu jamais vou poder acompanhar, e eu entendo isso.
É completamente normal e saudável que você amadureça dessa forma.
Enfim, o que eu quero dizer com todo esse papo furado é que eu agradeço
por você ter me contado, muito mesmo. Apesar de saber que eu poderia
sentir muita raiva, você não fugiu de mim, porque temos muita confiança
uma na outra. E essa é uma das maiores lições que uma mãe pode ensinar a
um filho. Estou orgulhosa dessa prova de que você está amadurecendo…
Deixando de ser a minha garotinha para se tornar uma mulher
independente, que sabe o que é melhor pra si.
Mamãe manteve o sorriso compreensivo, e só então eu me dei conta de que
tinha chances concretas de continuar viva e inteira após aquela
conversa. Toda a tensão daqueles últimos tempos estava se esvaindo
lentamente, e eu me sentia mais leve a cada segundo. O apoio dela era
tudo o que eu precisava para ser verdadeiramente feliz, e agora que eu o
estava recebendo, todos os problemas pareciam cada vez menores.
- Obviamente, eu estou morrendo de medo disso – ela confessou, e ambas
sorrimos de um jeito nervoso – Eu posso ser bastante liberal, mas ainda
sou mãe, e mães têm uma certa fobia em relação a tudo que possa
representar perigo para seus filhos. Portanto, sim, eu estou muito
assustada com o fator idade e pretendo conhecer e investigar direitinho
esse seu namorado. Mas eu não posso simplesmente enfiar a mão na sua
cara e te botar pra fora de casa por causa disso… Sabe por quê?
Neguei com a cabeça, focando toda a minha atenção em suas palavras, e ela continuou:
- Porque a primeira coisa que você faria seria procurá-lo… Estou errada?
Sorri junto com ela, totalmente desconcertada, e neguei novamente.
- Qual seria a minha atitude como mãe deixando minha filha nas mãos de
um homem que eu não conheço? – ela perguntou, erguendo as sobrancelhas e
entortando a boca por alguns segundos – Eu seria uma completa
desnaturada, sem dúvida alguma. Não é certo te punir por gostar de
alguém mais velho. O amor não escolhe endereço, sexo, religião… Muito
menos idade. E eu sei muito bem disso.
- Sabe? – murmurei, intrigada, e ela assentiu com um sorriso.
- Acha que nunca me apaixonei por um professor? – mamãe riu, e eu a
acompanhei – É claro que já. Várias vezes, por sinal. Chorava porque
eles nunca me notavam, me derretia toda só de conversar com eles, até
tinha vergonha de simplesmente olhar pra eles… Acredite, eu era
patética. E assim como nós duas, praticamente toda garota se apaixona
loucamente por um professor. Faz parte da explosão de hormônios que
acontece na adolescência.
Concordei com a cabeça, apertando sua mão e sentindo como se um peso enorme tivesse sumido de meus ombros.
- Além do mais, seu pai é oito anos mais velho que eu, esqueceu? – ela
ressaltou, e eu ergui as sobrancelhas, só então me recordando disso –
Quando nos conhecemos, eu tinha 19 e ele, 27. Mesmo com nossa diferença
nem tão significativa aparentemente, enfrentamos um certo preconceito.
Sua avó não aceitou durante os primeiros meses, mas quando eu disse que
iríamos nos casar, dois anos depois, ela percebeu que nós nos amávamos
de verdade e passou a aceitar muito bem os oito anos entre nós.
Assenti, refletindo sobre o que ela havia dito. Naquele momento,
imaginei como estaria meu pai em Aberdeen, casado com sua nova esposa
após a separação de mamãe.
Provavelmente, lidando muito bem com os dez anos de diferença entre ele e
minha madrasta. O pensamento me fez sorrir, e me lembrou de que eu
estava devendo uma visita a eles desde as férias de verão passadas.
- Obrigada por me compreender – agradeci baixinho, encarando-a com toda a
minha sinceridade e gratidão – Eu juro que quis te contar desde o
princípio, mas tive muito medo.
- Não precisa se desculpar, meu amor – ela disse, sorrindo
compreensivamente – Namorado nenhum nesse mundo vai te amar mais do que
eu, portanto confie em mim pra tudo, eu vou te apoiar seja no que for.
Até mesmo se estiver grávida, usando drogas… Mas quanto à parte do
trailer no Texas, nem pensar.
- Obrigada – falei, dando risada de sua careta ao finalizar a frase, e
ela se empertigou no sofá, como se estivesse embaraçada com o que estava
prestes a dizer.
- Já que estamos resolvidas quanto a isso… E se você me perdoa a
curiosidade, eu… Bem, eu quero saber de tudo – mamãe confessou, dando um
sorrisinho sem graça, e eu engoli em seco – Como começou, o que
aconteceu… Só corte os detalhes mais sórdidos, por favor.
Hesitei antes de respondê-la. Talvez o pior ainda estivesse por vir.
- Eu não sei se você vai gostar disso… – respirei fundo, resgatando
minha coragem e determinação para narrar os verdadeiros acontecimentos
dos últimos meses, até mesmo os menos gloriosos – Mas eu prometi a mim
mesma que você saberia de tudo por mim, antes de possivelmente ouvir
versões de outras pessoas.
Mamãe franziu a testa diante de minha seriedade, e eu comecei.
Expliquei toda a história, desde breves perfis dos dois até os recentes
acontecimentos em relação ao meu rompimento com Mica. Não alterei nenhum
detalhe, determinada a ser totalmente verdadeira com mamãe. Mesmo tendo
demonstrado muita compreensão, eu não sabia como ela reagiria diante de
todas aquelas revelações, e eu não pretendia mais mentir para ninguém.
Muito menos para ela. Mesmo que isso fosse mudar completamente sua
reação diante da situação.
- Deixe-me ver se entendi direito – ela disse, quando eu terminei de
falar, concentrada em organizar os fatos em sua mente – Você namorou por
um tempo com um, mas acabou traindo-o com o outro e se apaixonando por
ele. Quando você já não agüentava mais toda essa culpa e estava
finalmente disposta a ficar apenas com o amante, descobriu que o outro
um tinha uma noiva desde o começo, e agora ele está disposto a tudo para
te prejudicar porque descobriu que estava sendo traído?
- Basicamente, sim – assenti, levando alguns segundos para compreender o
resumo confuso que ela havia feito e sentindo-me novamente nervosa
diante dela. Agora sim eu estava quase certa de que receberia alguns
golpes de luta livre ou seria submetida a algum tipo de tortura chinesa.
Mamãe ficou quieta por alguns minutos, compenetrada em algo que eu não
estava enxergando na altura de seu joelho, e eu não ousei interromper
seu devaneio. Era informação demais para uma noite só.
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