Abri os olhos com cuidado, e agradeci por não estar mais tonta. O oxigênio já fluía mais tranquilamente por minhas vias respiratórias, e meu corpo parecia mais relaxado. Ergui minha cabeça sem pressa até conseguir olhar pra ele, e sua expressão demonstrava um deslumbre retraído, intrigado. Era como se eu fosse algo ainda a ser desvendado, algo que ele não conseguia compreender. Apesar de meu rosto só demonstrar cansaço, Arthur também tinha um significado incompreensível pra mim, ainda mais depois de tudo aquilo.
Fechei meus olhos novamente, sem agüentar encarar aquele brilho ofuscante no olhar dele por muito tempo. Meu coração precisaria de algum tempo pra se recuperar, e olhá-lo tão de perto nos olhos era suicídio. Respirei fundo, e quando estava prestes a abrir os olhos novamente, senti os lábios dele nos meus, daquele jeito que não me dava outra escolha a não ser corresponder. Não porque ele não me dava chance de escapar, mas porque meu corpo o correspondia sozinho, sem nem pedir autorização. Uma de suas mãos envolveu um lado de meu rosto, e a outra me abraçou pela cintura de um jeito reconfortante.
Alguns segundos perdida naquele beijo e um turbilhão de memórias passaram pela minha cabeça. Mica.
Por Deus, o que eu estava fazendo ali outra vez?
- Pára, Aguiar – soprei, afastando-o com esforço pelo peito com a expressão vagamente alarmada – Eu tenho que ir.
Arthur me encarou por pouco tempo, indo da confusão à resignação em poucos segundos. Me deixou levantar, dando as costas para mim enquanto caçava suas roupas, e eu não ousei olhá-lo outra vez, por mais que meus olhos teimosos estivessem diante do fato de que ele sem roupa era ainda mais atraente do que quando estava vestido. Fiz o mesmo que ele, me vestindo rapidamente e ainda cambaleando algumas vezes. Quando terminei, me virei em sua direção, mas ainda sem coragem de olhar diretamente em seus olhos.
Arthur já estava com sua blusa grafite, sua calça jeans escura e seus tênis perfeitamente brancos. Com menos roupas pra vestir do que eu, ele já tinha tido tempo pra arrumar o cabelo, despreocupadamente bagunçado do jeito de sempre, enquanto eu ainda procurava um elástico nos bolsos de minha calça pra prender o meu. Com o calor que eu ainda sentia, quanto menos coisas me abafando, melhor.
Quando meu cabelo já estava decentemente preso num rabo de cavalo alto, eu o encarei, mordendo meu lábio inferior um pouco dormente. Arthur estava com as mãos nos bolsos a poucos passos de mim, e seus olhos me instigavam a falar alguma coisa, mesmo que ele não tivesse emitido um som sequer.
- Isso… Isso foi… Isso foi extremamente… Errado – gaguejei, abrindo e fechando a boca sem dizer nada por várias vezes entre as palavras – E não vai acontecer de novo. Definitivamente não.
Ele continuou me encarando, sem expressão a não ser pela intensidade de seu olhar, e alguns segundos depois, um sorriso se formou em seus lábios avermelhados. Um sorriso convencido, nem um pouco preocupado com o ponto final taxativo que eu havia dado naquela situação.
- Que progresso – ele murmurou, erguendo as sobrancelhas por um momento em tom de surpresa – Hoje você preferiu falar alguma coisa a sair correndo com cara de horror. Isso aumenta bastante minhas esperanças.
Meu olhar estremeceu rapidamente quando ouvi sua voz carregada de prepotência. Por algum motivo, ele tinha certeza de que aquilo aconteceria novamente. E de alguma forma, eu não me sentia totalmente firme para contrariá-lo. Minhas pernas ainda não tinham parado de tremer, e as sensações que ele tinha me provocado estavam bem frescas em minha memória.
- Você não ouviu o que eu disse? – perguntei, tentando evitar que minha voz falhasse, mas foi totalmente em vão – Não vai acontecer de novo. Eu odeio você.
Dizer as últimas três palavras não foi tão convincente como costumava ser antes. Eu não sentia nenhum tipo de afeto por ele, mas odiar parecia não descrever exatamente o que ele representava pra mim. Era algo mais… Indescritível, talvez.
- Claro que ouvi – Arthur respondeu, irônico, assentindo uma vez e erguendo uma sobrancelha de um jeito que o deixava ainda mais sensual – Pude ler essas mesmas palavras escritas na sua testa ontem, com a mesma firmeza impressionante. E olha só que coisa, você está aqui hoje. De novo.
Engoli em seco, com a respiração levemente ofegante. As contradições dentro de mim estavam me deixando tonta novamente, mas eu me mantive firme, mesmo quando ele deu um passo na minha direção. Tudo bem, quando ele deu o segundo passo, eu comecei a ter leves vertigens, e só não caí quando ele resumiu a distância entre nós a poucos centímetros porque ele me sustentava, com seus dedos fortes ao redor de meus braços. Nossos olhares estavam magnetizados, conectados invisivelmente, e só se desviaram um do outro quando ele acariciou minha bochecha com a sua e murmurou em meu ouvido, com aquela voz irresistível:
- Vou esperar ansiosamente pela sua próxima visita.
Arthur se afastou novamente, com um sorriso de canto nos lábios, e assim que suas mãos me soltaram, pensei que fosse desmaiar. Mas após alguns segundos reunindo forças pra me manter de pé, fiz a única coisa que me ocorreu: saí correndo do laboratório, destrancando a porta com dificuldade, e quase caindo ao descer os degraus das escadas.
Ele estava errado. Eu não voltaria mais. Eu nunca mais me permitiria voltar àquele laboratório, mesmo que meu corpo gritasse pelo dele. Mesmo que meu corpo implorasse pra ter o que só ele conseguia me dar.
Nenhum comentário:
Postar um comentário