- Eu jamais te compararia a um brinquedo ou a um mero
objeto, por mais valioso e único que ele fosse… Você me entendeu errado,
ou talvez minha comparação tenha sido ruim o suficiente pra que você
tirasse conclusões erradas – Arthur
disse, mantendo-se impassível, e a enorme carga de determinação em sua
voz me fez estremecer involuntariamente - Eu não queria dizer nada do
que você concluiu. Quando usei a palavra brinquedo,
não foi pra te definir, eu juro. Foi uma tentativa mais do que
frustrada de tentar explicar o que você… Causa em mim. Mas eu percebi
que isso é impossível. Não existem exemplos adequados para definir o que
eu sinto.
Fiquei encarando seus olhos faiscantes por alguns segundos,
incapaz de tirar alguma conclusão. Minhas pernas tremiam mais que bambu
em ventania, meu coração queimava em meu peito, o ar parecia se recusar a
entrar em meus pulmões. Por que ele tinha que me falar todas aquelas
merdas? E o pior de tudo, por que eu tinha que gostar tanto delas? Levei
alguns segundos para conseguir voltar a falar, e quando o fiz, quase
toda a raiva havia se transformado em hesitação.
- Eu… – comecei, pigarreando logo que percebi a confusão explícita
em minha voz, e sem saber bem como prosseguir, suspirei, tentando
encontrar as palavras certas – Não acredito em você, Aguiar. Vá embora.
Ele respirou fundo, sem mudar de expressão, e após alguns segundos sustentando meu olhar, assentiu devagar.
- Tudo bem – ele disse, com a voz conformada – Se é o que você quer de verdade, eu vou.
Totalmente surpresa com aquela atitude, busquei algum vestígio de
raiva ou irritação em seus olhos, em vão. Tentei entender o que estava
acontecendo, mas suas íris estavam vazias, ilegíveis. Ele estava… Cedendo?
Ele aproximou seu rosto do meu, colocando uma de suas mãos em meu
rosto, e eu fechei os olhos, momentaneamente paralisada, ao sentir seus
lábios tocarem minha pele.
Arthur beijou o
canto de minha boca por um tempo que me pareceu mais longo que o
aconselhável, e imediatamente meu corpo se arrepiou inteiro. Em seguida,
ele voltou a se afastar, ainda sério, e deu um passo para trás,
indicando que estava indo embora.
- Só não pense que estou desistindo de você – sua voz baixa
avisou, persistente e consideravelmente resignada, enquanto eu me
esforçava para continuar de pé – Isso jamais vai acontecer.
Arthur virou-se em direção à porta do quarto e começou a andar até
ela, me deixando completamente anestesiada e confusa. Então era isso?
Bastou uma dose a mais de autocontrole de minha parte para convencê-lo?
Era tão simples fazê-lo desistir de mim, mesmo que temporariamente? O
que havia acontecido com ele afinal? Onde estava o
Aguiar insistente e determinado que eu sempre conheci, disposto a praticamente tudo pra conseguir o que queria?
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