Franzi a testa, sentindo meus olhos reclamarem mesmo ainda estando
fechados. Deixei que minhas pálpebras se afastassem por milímetros, e a
forte luz do sol atingiu em cheio minhas retinas, fazendo-me gemer
baixinho e fechar os olhos novamente. Eu devia ter fechado as cortinas
em algum momento da noite anterior; não que elas fossem impedir os raios
solares de me perturbarem, mas pelo menos ajudariam um pouco.
Provavelmente, eu estava ocupada demais para pensar em detalhes como
esse.
Tomei coragem e abri novamente os olhos, bem devagar e piscando algumas
vezes para adaptar minhas pupilas. Me senti um pouco mais confortável
dessa vez; respirei fundo, espreguiçando-me e recebendo a resposta
preguiçosa de meus músculos. Eles haviam trabalhado bastante nas últimas
horas e não queriam se mover, mas eu os forcei a se esticarem por
alguns segundos, numa tentativa falha de me trazer disposição. Eu estava
morta, exausta, esgotada, e o culpado por isso dormia feito pedra ao
meu lado.
Assim que o vi, escorado sobre o travesseiro, um sorriso sapeca surgiu
em meu rosto. Eu nunca o havia visto dormindo, e imediatamente me senti
injustiçada. Ele já havia me visto dormir uma vez, e posso garantir que a
visão não fora das mais agradáveis. Já ele… Parecia uma escultura de um
anjo que havia ganhado vida, e ressonava tranqüilamente, com o rosto
calmo a poucos centímetros do meu. Tive a leve impressão de que seria
capaz de observá-lo pelo resto da vida.
Seu nariz por pouco tocava o meu, e seu cabelo, por mais bagunçado que
eu o tivesse deixado, parecia ter sido arrumado durante o sono, voltando
ao seu estado despojado e lindo de sempre. Seus lábios estavam fechados
numa linha reta e fina, e seu peito nu subia e descia conforme sua
respiração calma. Sua mão ainda repousava em minha cintura, como estava
desde que caí no sono, e nossas pernas estavam novamente entrelaçadas,
permitindo-me tentar esquentar seus pés gelados. Meu coração batia
acelerado a cada detalhe que eu observava, e o sorriso insistia em
permanecer, me fazendo sentir uma idiota.
Uma idiota apaixonada.
Engoli em seco ao notar o sentimento proibido lutar para se expandir
ainda mais dentro de mim, sem conseguir encontrar espaço. Mas, de alguma
forma, eu sabia que ele crescia a cada segundo, silenciosamente como
sempre, e enrolava uma corda invisível ao redor de meu pescoço, pronto
para me enforcar quando eu menos esperasse, e assim me render por
completo. Suspirei profundamente, sentindo o sorriso se esvair de meu
rosto, e encarei seus cílios, desejando encontrar os olhos dele me
encarando de volta. Quem sabe assim eu conseguisse afastar todos aqueles
conflitos de minha mente e simplesmente me perder no brilho de suas
íris… Me esconder em meu refúgio mais que perfeito.
Não sei por quanto tempo apenas observei os traços tranqüilos de seu
rosto, sem conseguir sorrir. As inúmeras vozes dentro de minha cabeça,
falando incessantemente sobre todos os recentes acontecimentos, me
deixavam confusa demais para realmente sentir alguma coisa e manifestar
esse sentimento. Somente quando um barulho familiar rompeu o silêncio do
quarto, eu acordei de minhas reflexões, e subitamente fiquei alerta. O
som se parecia com chaves balançando num molho, e tinha vindo do andar
de baixo. Mais especificamente da porta de entrada.
E foi então que eu finalmente entendi o que ele significava.
Mamãe havia chegado.
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