- Nada, oras – dei de ombros, como
se não o tivesse visto há cerca de vinte e quatro horas (nu) – Você
sabe que ele é doido, deve ter cheirado gatinhos demais e decidiu me dar
oi assim, do nada.
Ela ergueu uma sobrancelha, desconfiada, e eu mantive minha expressão inocente, até que ela se deu por convencida.
- Tô de olho em você, viu,
Messi? – ela avisou, e o sinal tocou logo em seguida, abafando meu riso um pouco tenso. Ter Sophia Abrahão, a reencarnação de Sherlock Holmes, na minha cola não era exatamente um fator tranqüilizante.
As três primeiras aulas passaram mais rápido que o esperado, e
quando me dei conta disso, já estava caminhando rumo ao pátio para o
intervalo. Meu coração começou a bater descompassado ao me lembrar do
que havia combinado para aquele momento, e meus olhos procuravam por
Mica
no meio da bagunça de gente, apreensivos e temerosos. Eu queria muito
vê-lo, mas ao mesmo tempo, desejava poder me manter trancada no banheiro
até o sinal tocar e eu ter que retornar à classe.
- Lá vai ela tirar o atraso –
Sophia
murmurou ao notar meu jeito tenso, e eu mostrei a língua, forjando um
bom humor muito fajuto. Mal sabia ela que atraso sexual era a última
coisa da qual eu sofreria enquanto Thur existisse, mas eu preferia me manter bem longe de pensamentos como esse.
Descemos as escadas com o fluxo de alunos, e assim que chegamos ao primeiro andar, vi
Mica
parado ao lado do bebedouro, cumprimentando alguns idiotas do segundo
ano que passaram. Ele sorriu assim que me viu, e eu não pude evitar
fazer o mesmo. Olhei rapidamente para Sophia,
recebendo um sorriso de incentivo dela, e fui até o banheiro feminino,
que ficava ao lado do bebedouro, só para despistar o resto dos alunos.
Fiquei me olhando no espelho por algum tempo, mal conseguindo disfarçar
meu nervosismo ao forjar uma arrumada no cabelo, enquanto ele fingia
amarrar os tênis demoradamente.
Em poucos segundos, o corredor e as escadas ficaram praticamente
desertos, e ele assentiu para mim. Caminhamos depressa (aliás, ele me
arrastou corredor abaixo porque minhas pernas estavam um pouco bambas e
lentas em relação às dele) em direção à sala que sempre ficava vazia
naquele andar àquele horário, e assim que nos trancamos dentro dela,
senti
Mica envolver minha cintura com força
num abraço apertado. Atirei meus braços ao redor de seu pescoço devagar,
e fechei os olhos, torturada. Como um abraço podia ser tão bom e
doloroso ao mesmo tempo?
- Oi! – ele murmurou, erguendo-me do chão e beijando a curva de meu pescoço demoradamente.
- Oi – repeti, respirando fundo para encher meus pulmões com seu
perfume e sentindo meu coração quase explodir de alegria, e ao mesmo
tempo, de tristeza, por finalmente poder abraçá-lo.
- Como é bom estar de volta –
Mica
sorriu, colocando-me no chão e pela primeira vez olhando em meus olhos
sem ter que disfarçar seus verdadeiros sentimentos – E é melhor ainda
poder encostar em você de novo!
- Eu que o diga – sorri o mais intensamente possível, segurando
seu rosto com minhas mãos, e logo em seguida, nossos lábios colidiram
com avidez, dando espaço para que nossas línguas se unissem, cheias de
saudade. Não havia como definir aquele beijo; era um equilíbrio entre
delicadeza e brutalidade, pressa e calma, amor e tesão, mas ao mesmo
tempo, conseguia ser tudo isso junto. Preferi deixar o peso alucinante
da culpa e do remorso de fora dessa definição; já não é novidade alguma
que eu sou uma garota dividida entre o paraíso e o inferno.
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