Meu maior temor, meu pior pesadelo, havia enfim, se tornado realidade.
Minha cabeça parecia estar dentro de um liquidificador quando meu olhar encontrou o dele. Os dedos de Thur
se fecharam com força entre os meus, como se ele soubesse que eu seria
capaz de desfalecer a qualquer segundo. Porém, sua força foi inútil;
minhas pernas vacilaram perigosamente para baixo, mas num último
esforço, eu me mantive de pé, disfarçando meu equilíbrio prejudicado. Eu
tinha que ficar consciente. Eu não podia me permitir ser tão fraca, não
num momento como aquele, por mais que tudo que eu quisesse fosse
simplesmente apagar.
- Roberta? – a voz falha de Mica pronunciou meu nome, fazendo jus à sua expressão perplexa – O que… O que você tá fazendo aqui?
Meus pulmões pareciam completamente vazios, causando-me uma falta
de ar insuportável, porém era como se eu os fosse explodir se
inspirasse. Tudo ao meu redor girava a uma velocidade alucinante,
fazendo com que apenas Mica se mantivesse
parado à minha frente enquanto todo o resto rodopiava, transformando-se
em borrões coloridos e desnorteando-me por completo.
- Thur, o que está acontecendo? – ele
voltou a falar, demorando a desviar seu olhar do meu para encarar o
amigo – Alguém pode me explicar o que…
Sua voz, já um pouco mais alta que o habitual, subitamente cessou
quando ele finalmente encontrou a resposta muda às suas dúvidas. O
assombro percorreu seu rosto por alguns segundos, fazendo-o soltar todo o
seu ar de uma única vez e contorcer seus traços em uma compreensão
indesejada.
Meus dedos, firmemente entrelaçados aos de Thur, o fizeram entender o que estava acontecendo todo o tempo, bem debaixo de seu nariz.
- Mica, calma – Thur pediu, com a voz determinada, porém assim que ele fez menção de continuar, foi bruscamente interrompido.
- Calma? – Mica exclamou, encarando-o com olhos vidrados e gradativamente homicidas – Por que eu deveria ficar calmo ao ver você de mãos dadas com a minha namorada?
- Porque não é ele quem está segurando minha mão – pude ouvir minha própria voz dizer, estrangulada, fazendo com que Mica transferisse seu olhar colérico até mim – Eu estou segurando a mão dele.
Seus olhos castanhos continuaram me
fitando com horror por alguns segundos, como se testassem minha
capacidade de encará-lo. Não consegui fitá-lo por muito tempo, e logo
voltei a olhar para o chão, sentindo mais lágrimas se formarem. Após
minhas recentes descobertas sobre Mica, meus
sentimentos por ele haviam mudado da água para o vinho, mas ainda assim
não era daquele jeito que as coisas deveriam estar acontecendo. Thur não deveria ter sido envolvido em nenhum momento de meu acerto de contas com Mica.
- Então… Você acabou de dizer que está me traindo, Roberta? – Mica
perguntou entre dentes, e eu fechei os olhos, me sentindo um monstro ao
ouvir sua voz trêmula sintetizar nossa situação – E ainda por cima com o
meu melhor amigo?
- Não aja como se ela fosse a única errada nessa história – Thur
interveio, com a voz grave, e um soluço baixo escapou por entre meus
lábios – Suas atitudes também não foram das mais nobres com ela.
- Não foram das mais nobres? – Mica
repetiu, e mesmo sem olhá-lo, senti a ironia em seu tom – Por acaso eu
fui um mau namorado? Por acaso eu deixei de dar o que ela queria em
algum momento?
- Você não pode estar falando sério – sussurrei, sem conseguir
conter minha raiva diante de sua postura, fechando meus olhos com mais
força – Esconder uma noiva por todos esses meses lhe parece uma atitude
nobre?
- Noiva? Que noiva? – Mica questionou, tentando isentar-se da culpa, e Thur logo fracassou suas expectativas.
- Ela nos ouviu conversando sobre a Alice agora pouco, não adianta tentar negar. Assuma seus erros, Borges, assim como estamos assumindo o nosso.
- Isso não muda nada – Mica disse após
alguns segundos de silêncio, e eu senti uma dor lancinante percorrer
todo o meu corpo ao ouvir sua confissão – Ela não sabia de nada antes de
me trair, e aposto que não pensou duas vezes antes de me apunhalar
pelas costas, não é, sua vadia?
- Cala a boca – Thur rosnou, com a respiração cada vez mais pesada, e eu ergui meus olhos vermelhos e molhados até encontrar os de Mica.
- Cala a boca você, Aguiar! – ele
retrucou num volume alto, aproximando-se de mim com um olhar neurótico, e
parou a um passo de distância – Ela é uma vadia mesmo, e é assim que
vadias merecem ser tratadas!
Antes que Thur pudesse abrir a boca mais uma vez, a mão forte de Mica voou na direção de meu rosto, dando-me um tapa ardido e doloroso que me fez cair a alguns passos de distância dos dois.
- Qual é o seu problema, seu merda? – Thur exclamou, empurrando Mica
pelo peito, e eu prendi um grito de dor, engolindo meu choro
desesperado e sentindo gosto de sangue em minha boca. O lado agredido de
meu rosto pareceu inchar e latejar imediatamente, e toda a dor só
aumentava a cada segundo, porém eu não ousei fechar meus olhos ou
derrubar uma lágrima. Eu havia errado e merecia um castigo por isso.
- Sua puta! – Mica xingou, apontando para mim, e eu me levantei rapidamente, vendo Thur avançar cada vez mais para cima dele – Vadia, piranha, biscate!
- Você mentiu pra mim desde o começo, Mica
– falei, balançando negativamente a cabeça e encarando-o com tristeza,
ainda sem acreditar que ele havia realmente sido capaz daquilo – Você
sempre me enganou… Por quê?
- Porque eu amo você! – ele exclamou, com a testa pesadamente
franzida, e duas grossas lágrimas caíram de seus olhos – Eu amo você,
sua maldita! Como você foi capaz de fazer isso comigo?
- Você me ama? – repeti, cerrando os olhos e sentindo minha
barreira invisível contra as lágrimas aos poucos ceder – Se me amasse de
verdade, teria me contado.
- Foi exatamente por isso que eu nunca te contei! – ele disse,
contorcendo o rosto em tristeza e deixando ainda mais nítido que estava
chorando – Eu sabia que você jamais aceitaria ficar comigo se soubesse!
- E por isso a enganou? Você realmente achou que esse seu plano funcionaria para sempre? – Thur perguntou com fúria na voz, ainda mantendo uma postura ameaçadora diante de Mica – Foi muita imaturidade sua, Micael!
- Quem é você pra me falar de maturidade, Thur? – Mica retrucou, encarando-o com ódio e dando um passo em sua direção – Olha o que você foi capaz de fazer comigo!
- Nada que você não merecesse! – Thur cuspiu, e assim que o punho de Mica avançou na direção dele, um grito de pavor escapou por minha garganta.
- Não!
Lancei-me na direção de Thur, segurando em seu braço e puxando-o para trás antes que fosse golpeado. Por pouco o punho de Mica não o acertou, e eu segurei firme no braço de Thur para que ele não tentasse revidar a agressão.
- Eu vou matar você! – Mica o ameaçou, avançando em nossa direção, e antes que ele se aproximasse muito, Thur, cego de ódio, desvencilhou-se de mim e o empurrou novamente, dessa vez derrubando-o no chão.
- Some da minha frente antes que eu te mate! – ele urrou, mantendo contato visual com Mica por alguns segundos até que este se levantou e desviou seu olhar repleto de ira até o meu.
- Eu ainda não acabei com você – ele
murmurou, novamente apontando em minha direção, e o tom psicopata em
sua voz me arrepiou da cabeça aos pés – Pode esperar… Nós ainda vamos
acertar nossas contas.
- Some daqui,
Borges! – Thur gritou, apontando para as escadas, e após mais alguns segundos me encarando, Mica deu meia volta e desceu rapidamente os degraus. Thur e eu continuamos paralisados por um tempo, apenas encarando o espaço vazio antes ocupado por Mica,
sem saber como reagir. Minhas pernas tremiam assustadoramente, e assim
que minha mente compreendeu que a ameaça imediata de perigo já havia ido
embora, a dor física e emocional começou a se manifestar com toda a sua
intensidade, fazendo com que meus joelhos cedessem ao meu peso. Porém,
antes que eu caísse, as mãos de Thur envolveram meus braços com firmeza, mantendo-me de pé.
- Calma, calma – ele soprou, puxando-me para si e afundando-me em seu abraço – Vai ficar tudo bem, eu prometo.
Tentei abrir a boca para dizer que não, mas não consegui. Eu sabia
que nada ficaria bem dali em diante, e que todas as minhas certezas
seriam apenas lembranças muito em breve.
Mica
faria de minha vida um inferno, espalharia para quem quisesse ouvir o
que aconteceu entre nós, mancharia minha imagem e me prejudicaria de
todas as maneiras que lhe fossem possíveis.
- Vem, vamos cuidar de você –
Thur
sussurrou, desfazendo nosso abraço e me guiando até a porta do
laboratório outra vez. Ele rapidamente destrancou-a para que
entrássemos, e logo em seguida voltou a trancá-la, dando-nos total
segurança. Meu corpo estava completamente mole, inerte, sem forças para
realizar qualquer movimento. A dor em meu rosto ficava mais forte a cada
segundo, mas na realidade era sua causa moral quem a fazia latejar. Eu
já havia tido vários pesadelos com aquele momento, mas nunca imaginei
que eles fossem se concretizar daquela maneira tão inesperada e cruel.
- Senta aqui – ele pediu, erguendo-me do chão e colocando-me sobre
a bancada. Seus olhos pairaram sobre o lado agredido de meu rosto por
alguns segundos, e um suspiro escapou por entre seus lábios, denunciando
que os dedos de
Mica provavelmente haviam ficado marcados ali. Nada que eu não merecesse.
- Eu sou um monstro – solucei, sem sequer conseguir encará-lo, e
ele colocou suas mãos delicadamente em meu rosto, sem tocar a parte
afetada – Ele tem razão em tudo que disse sobre mim.
- Não,
Roberta, ele está errado – Thur
sussurrou, erguendo meu rosto sutilmente para que eu não tivesse como
fugir de seu olhar – Você sempre se preocupou com ele, apesar de tudo,
enquanto ele te enganou de propósito por todo esse tempo… Pra mim, ele é
o monstro, não você.
Balancei negativamente a cabeça e fechei os olhos com força, sem
conseguir respirar e sentindo meu choro se intensificar a cada vez que
os olhos de
Mica voltavam à minha mente.
- Me escuta – ele insistiu, enxugando minhas lágrimas com cuidado e
me olhando com determinação – Se existe algum culpado nessa história
toda, essa pessoa sou eu. Se você está nessa situação hoje, a culpa é
inteiramente minha. Eu te persuadi a ficar comigo, eu fui inescrupuloso
ao te querer pra mim mesmo sabendo que você já estava com ele…
- Não,
Thur – gemi baixinho, segurando suas mãos e erguendo meus olhos até os dele – Eu sou a culpada…
- Claro que não! – ele persistiu, aproximando seu corpo do meu e
franzindo levemente a testa, como se estivesse sofrendo comigo – Se você
quiser, eu posso ir atrás dele e dizer que foi tudo culpa minha, e que
eu te chantageei para poder ficar com você…
- Você não vai fazer um absurdo desses – o interrompi, horrorizada
com seus pensamentos errôneos – Não há nada que possamos fazer… Nada
vai mudar o que aconteceu.
Ele apenas me encarou, soltando um suspiro derrotado, e seu olhar
triste sustentou o meu por alguns segundos, até que seus braços
envolveram minha cintura delicadamente. Afundei meu rosto em seu peito,
sentindo as lágrimas caírem livremente por ele, e fechei fortemente os
olhos, sentindo meu coração se contorcer de dor. Ergui meu rosto para
poder observar o dele, e minha bochecha machucada roçou seu peito com
certa força, fazendo com que uma dor pulsante encolhesse meu corpo de
imediato.
- É melhor eu pegar algo gelado pra colocar aí -
Thur
disse, se afastando de mim, e eu pude ver tristeza em seus olhos ao
fitar meu rosto dolorido. Respirei fundo, encarando o espaço vazio onde
antes ele estava por um tempo, mas que logo foi ocupado por seu corpo
novamente.
Thur sorriu fraco, porém sem alegria nenhuma, e me estendeu uma
luva de plástico com alguns cubos de gelo dentro e uma carinha feliz
desenhada nela. Fitei o sorriso disforme que ele havia improvisado sem
que eu sequer me desse conta, e mesmo me sentindo horrível, um
sorrisinho triste surgiu em meu rosto.
– Vamos esperar até você se acalmar um pouco e eu te levo pra
casa, está bem? – ele murmurou, afastando algumas mechas de cabelo de
meu rosto, e eu assenti fracamente. Coloquei a luva sobre meu rosto e
fechei os olhos ao sentir o efeito da baixa temperatura em contato com
minha pele.
- Estou com medo de ir pra casa – sussurrei após longos segundos
de silêncio, vendo-o me olhar em dúvida – Não vou conseguir esconder de
minha mãe.
- Quer ir pra minha então? – ele perguntou baixo, inclinando um
pouco a cabeça para o lado, e eu pensei por alguns segundos antes de
negar fracamente – Por que não? Vai ser bom poder cuidar de você.
- Eu estou bem – murmurei, desviando meu olhar do dele e engolindo
a tristeza presa em minha garganta com toda a força que encontrei, para
que ele não se preocupasse tanto comigo – Só preciso ficar sozinha um
pouco.
- Tudo bem… Mas por que você mente pra mim? – ele indagou,
ajeitando carinhosamente meus cabelos para que eles se comportassem
atrás de minha orelha e fazendo minhas lágrimas silenciosas voltarem a
cair – Tudo que eu quero é cuidar de você agora.
- Eu não gosto de compartilhar minhas dores – falei com a voz
contida, voltando a encarar seus olhos, agora ainda mais escuros que de
costume – Prefiro assim… Não quero que as pessoas sintam pena de mim.
- Eu não sinto pena de você –
Thur
disse, encarando-me com seriedade – Eu gosto de sentir o que você sente…
Mesmo que seja dor. Sabe, isso me faz bem. Me faz sentir um pouco menos
frio por dentro.
Soltei um suspiro fraco, e fechei meus olhos por um momento antes de voltar a fitá-lo. Ele não podia ser real.
- Você não é frio por dentro – o corrigi baixo, entrelaçando meus
dedos nos dele inconscientemente e sentindo meu rosto completamente
lavado de lágrimas.
- Eu era – ele suspirou, olhando para nossas mãos unidas, e havia
um certo tom de confissão em sua voz – Mas você tem me ajudado bastante
nisso.
Minha mão havia relaxado inconscientemente, e o contato repentino
de sua pele quente contra a minha já um pouco mais gelada me arrepiou de
leve conforme ele voltava a ajeitar a luva sobre meu rosto com um
sorrisinho compreensivo, porém ainda muito triste. Tudo que consegui
fazer foi continuar chorando silenciosamente e apertar seus dedos entre
os meus.
- Digamos que você é minha pequena faísca de felicidade – ele
murmurou com a voz e o olhar baixos – E eu não vou deixar que suas
lágrimas te apaguem.
Não consegui responder nada, sentindo mais lágrimas se formarem, porém dessa vez, havia um mísero fio de alegria nelas.
Thur
soltou um risinho de deboche, envergonhado, e eu selei nossos lábios
com carinho, segurando seu rosto com a mão livre e acariciando sua pele
com meus polegares. Ele chegou mais perto, envolvendo minha mão que
segurava a luva para que ela não saísse do lugar, e afastou nossos
lábios, mantendo seu rosto muito próximo.
- Não vai embora, por favor… Não agora – funguei, sendo
involuntariamente infantil, e ele deu um sorriso adorável – Eu preciso
muito de você, agora mais do que nunca.
- Eu não estava indo a lugar algum – ele soprou contra meus lábios
enquanto eu o abraçava pelo pescoço com o braço desocupado – Nem agora,
nem depois.
Sem, palavras diante das dele, levei alguns segundos para
conseguir sorrir fraco, admirada com sua atitude. Pela milésima vez
naquele dia.
Nenhum comentário:
Postar um comentário