Já havia escurecido quando
voltei a abrir os olhos, bem menos cansada que antes e com uma fome
estratosférica. O silêncio ainda predominava em casa, exceto pelo
barulho da TV no andar de baixo, provavelmente responsabilidade de
mamãe. Dessa vez, foi muito fácil levantar e fazer uma visita ao
banheiro, mais especificamente ao chuveiro.
Entrei de cabeça sob a cachoeira
quente, e me lavei sem muitas delongas. Logo em seguida, escovei os
dentes, e assim que havia acabado, me encarei no espelho. Meus lábios
pareciam constantemente curvados num sorriso, sem que eu sequer me desse
conta disso, meus olhos brilhavam mais que o normal, minhas bochechas
estavam coradas e quentes, meu coração parecia forte, batendo num ritmo
mais acelerado que o habitual… Eu estava diferente. Eu estava bem.
Deixei o banheiro cantarolando uma música qualquer, e assim que
minhas mãos se dirigiram à toalha enrolada em meu corpo, me lembrei de Thur
arrancando-a na noite anterior. Um leve arrepio percorreu meu corpo
instantaneamente; com certeza, eu levaria algum tempo para me recuperar
daquela noite. Tive que respirar fundo antes de prosseguir, mas parecia
que alguém não queria que eu o fizesse.
Meu celular tocou assim que minhas mãos se dirigiram à toalha, e
eu corri para atendê-lo, olhando o visor antes. Um nó dolorido se formou
em minha garganta e todo o clima agradável desapareceu quando li o nome
escrito na tela.
- Alô? – murmurei ao atender, sentando-me na cama e levando a mão
livre ao pescoço numa tentativa idiota de fazer minha voz fluir melhor, e
também de conter o enjôo forte que se apoderou de meu estômago,
extinguindo minha fome por completo num segundo.
- Oi, meu amor! – Mica sorriu, parecendo
extremamente aliviado, e meus olhos se fecharam quando senti a alegria
em sua voz – Acabei de chegar de viagem!
- Que bom – respondi com a maior empolgação forjada que consegui,
mordendo meu lábio inferior logo em seguida e sentindo meus olhos
ficarem úmidos numa velocidade alucinante.
- Como você tá? – ele perguntou, animado - Aproveitou bastante seu fim de semana sem mim, aposto!
Levei alguns segundos para fingir um risinho e encontrar minha voz
para respondê-lo. Se ele soubesse o impacto que essas brincadeiras
tinham em mim, não as faria. Ou talvez, fizesse pior, para me dar
exatamente o que eu merecia receber: dor.
- Tô bem – falei simplesmente, e ao abrir os olhos, vi boa parte
de meu quarto em borrões devido à água que se acumulava neles – E você?
Como foi a viagem?
- Confesso que eu tô um pouco triste, porque faz um tempão que eu não te vejo, e isso me deprime! – Mica
respondeu, fingindo um desânimo fúnebre na voz, assim como eu fingia o
contrário na minha – Mas a viagem foi ótima. Matei a saudade da família,
descansei bastante, segui todas as suas recomendações… Digamos que
estou fisicamente saudável. Meu emocional anda meio doente sem você pra cuidar dele.
Uma lágrima caiu por meu rosto, e eu prendi um soluço com esforço.
- Me desculpe por isso – falei baixinho, tentando fazer com que
minha voz estrangulada soasse proposital. Ele ficou em silêncio por
alguns segundos, me deixando um pouco preocupada, e quando voltou a
falar, sua voz parecia séria.
-
Roberta… Tá tudo bem mesmo? Você me parece… Preocupada com alguma coisa. O que foi?
- Eu estou bem,
Mica, juro – sorri, esforçando-me ao máximo para disfarçar minhas lágrimas – Não se preocupe comigo.
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