Ficamos em silêncio por mais alguns segundos, enquanto ele provavelmente decidia se acreditava em mim ou não.
- Hm… Então tá – ele finalmente
disse, agora com seu tom natural, e eu respirei fundo, aliviada – Vou
desfazer as malas agora e dormir… Quero estar totalmente disposto pra
voltar à rotina amanhã, e o mais importante, pra voltar pra você.
- Vai lá – murmurei, ainda sorrindo tristemente, enquanto as lágrimas continuavam transbordando – Boa noite.
- Boa noite, meu amor, até amanhã –
Mica sussurrou, e eu tive certeza de que estava sorrindo – Te amo muito!
- Eu também – falei, e desliguei logo em seguida. Apoiei meus pés
sobre o colchão e abracei meus joelhos, enterrando meu rosto neles e
deixando que a dor e o choro me engolissem.
Meu coração parecia rodeado de agulhas, porque a cada batimento,
inúmeras fisgadas o dominavam. Ele me amava tanto… E eu, mesmo sabendo
que não merecia todo aquele amor tão puro, era incapaz de dizer a
verdade e afastá-lo de mim… Afastá-lo do monstro egoísta e inescrupuloso
que eu era. Porque eu também o amava, e não conseguia me imaginar sem
ele ao meu lado.
Mas havia outra pessoa ocupando o mesmo espaço em meu coração. E
por mais que eu tentasse, escolher um só me parecia inaceitável. Ambos
eram tudo o que eu sempre quis, e tudo que eu jamais teria. Era
extremamente errado e impossível ter os dois… Meu coração não suportaria
a culpa.
Poucos segundos depois, ergui meu rosto, enxugando as lágrimas e
tentando contê-las em vão. Não adiantava chorar diante de meu dilema, de
que adiantariam lágrimas? Por mais que aquela dúvida me corroesse, não
fazia sentido algum ficar chorando ao invés de tentar ser o mais
objetiva possível e pesar minhas opções. Fiquei de pé, fungando
baixinho, e assim que dei um passo na direção do armário para me vestir,
meu celular voltou a tocar.
Fechei os olhos com força, hesitante, com medo de que fosse
Mica
novamente. Não sei se conseguiria fingir outra vez. Após alguns toques,
engoli o choro com esforço, peguei o aparelho sem coragem de ver o
número e atendi.
- Alô? – falei, tentando parecer firme, e a voz do outro lado da
linha fez minhas pernas tremerem tanto que por pouco caí no chão, ao
invés de sentar na cama outra vez.
- Por favor, diga que acordou há pouco tempo pra que eu me sinta menos preguiçoso por só ter acordado agora –
Thur sorriu, com a voz levemente sonolenta, e meus olhos se arregalaram ao ouvi-la.
- O que exatamente há de errado com você? – murmurei, sem
conseguir esconder meu espanto – Primeiro você invade minha casa, depois
descobre meu telefone… O que vai ser da próxima vez?
- Acha que nunca fiquei sozinho com o celular do
Mica
por alguns minutos? – ele riu, parecendo se divertir com minha reação –
E quanto à invasão da sua casa, prefiro não revelar meu segredo. Vou
deixar você se descabelar pelo resto da vida.
- Vai sonhando – bufei, revirando os olhos. Mentira, eu sabia que
passaria um bom tempo tentando descobrir como ele havia feito aquilo.
- Já sonhei – ele retrucou, esperto – Não houve um segundo do meu sono sem você em meus sonhos hoje.
Respirei fundo, ignorando suas provocações sem precisar de muito esforço. A conversa com
Mica ainda estava surtindo efeito em mim, e eu preferi não incentivá-lo.
-
Thur, por que você ligou? – perguntei
com firmeza, sem querer estender muito aquela conversa – Se foi pra me
provocar, fique sabendo que…
- Que o quê,
Roberta? – ele me
interrompeu, igualmente firme – Qual é a mentira que você vai me contar
dessa vez? Que me odeia, quando eu sei que você está se envolvendo
comigo? Que não é certo nós ficarmos juntos, quando eu sei que não
existe nada mais certo que você e eu?
- Pára com isso! – pedi, fechando os olhos, e antes que eu pudesse
me conter, já estava chorando de novo – Não me pressione mais por hoje,
por favor.
Ouvi ele respirar fundo do outro lado da linha, e logo em seguida, voltar a falar, com a voz grave.
- Ele te ligou, não foi?
Não consegui responder, apenas continuei chorando. Me sentindo extremamente suja por querer que
Thur
estivesse ao meu lado para me abraçar e me fazer acreditar que tudo
estava bem, como ele havia feito na noite passada. Não precisei
responder para que ele soubesse o que havia perguntado.
- Me desculpe, eu… Devia ter imaginado que ele ligaria quando chegasse –
Thur falou, sério e parecendo um tanto desapontado - Vou desligar.
- Não! – murmurei impulsivamente, sem querer ficar sozinha com
minha angústia nem deixá-lo chateado com meu choro idiota – Não precisa
desligar… Continue conversando comigo, por favor.
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