Ele não disse nada por alguns
segundos, processando meu pedido inesperado, e eu não conseguia impedir
as lágrimas de rolarem livremente por meu rosto. Pode parecer mentira,
mas eu me sentia extremamente carente, e uma certa saudade de Thur
me atingiu ao ouvir sua voz, fazendo-me apoiar meu queixo em meus
joelhos e imaginar por um segundo que era em seu ombro que minha cabeça
repousava.
- Claro… Eu só não sei se sou muito bom nisso – ele gaguejou, recuperando a firmeza aos poucos - Mas prometo dar o meu melhor.
- Obrigada – sorri fraco, grata, e me deitei lentamente na cama,
encolhida. Querendo ainda mais que pudéssemos conversar pessoalmente, e
que seu hálito de canela pudesse bater em meu rosto a cada palavra, e
que suas mãos pudessem fazer carinho em minha cintura enquanto sua voz
me fazia viajar para um lugar bom.
- Hm… Sobre o que você quer conversar? – ele perguntou, sem saber
bem por onde começar. Pensei por alguns segundos, e uma pergunta me veio
à mente.
- Por que não foi ao baile?
- Eu fui – Thur respondeu, e eu franzi a
testa, confusa – Mas é claro que você não estava lá, e eu não tive
motivos pra ficar. Além do mais, eu esqueci a Maria, e tive que sair
correndo pra buscá-la…
- Espera um pouco – falei, interrompendo-o, sem saber se tinha ouvido direito – Você esqueceu a Maria?
- Por que a surpresa? Eu faço isso
com mais freqüência do que você imagina – ele sorriu, e eu não pude
deixar de rir nem que fosse um pouco, imaginando a cena de Maria
chegando atrasada ao baile, sem acompanhante e completamente enfurecida –
Ela deve ter me entupido de magia negra, mas eu não me importo. Não se
surpreenda se eu me cortar fazendo a barba e sangrar até morrer, a culpa
é toda dela.
- Credo! – eu o repreendi, ainda rindo de leve, e assim que voltamos a ficar sérios, um longo silêncio predominou.
- Lua? – ele chamou, quando eu já estava começando a achar que a ligação havia caído.
- Hm?
- Nada… Só quis me certificar de que não estava segurando o telefone à toa.
Sorri fraco, perguntando-me se existia algum tipo de conexão entre
nossas mentes para que pensássemos a mesma coisa no mesmo momento.
Ficamos mais algum tempo em silêncio, apenas ouvindo as respirações um
do outro, até que eu o quebrei, sem saber direito se me arrependeria por
isso.
- Thur?
- Hm?
- Eu não consigo… Escolher.
Meus olhos vagavam pelas cortinas ondulantes, ainda levemente
úmidos, e parte de minha mente imaginava que expressão seu rosto havia
adotado. Ele com certeza sabia do que eu estava falando; não eram
necessárias mais palavras para que ele me entendesse.
- Você sabe que não posso te ajudar nisso – ele suspirou, após
digerir minha frase – Não conseguiria ser imparcial num assunto como
esse.
Fiquei em silêncio novamente, sem saber o que responder, e Thur continuou a falar após algum tempo.
- Eu quero que Mica seja feliz, de
verdade, e quero muito que você também seja. Mas, sinceramente, eu não
vejo como ele pode te fazer verdadeiramente feliz… Sendo que você tem a
mim.
Agradeci mentalmente o fato de estar deitada. Se estivesse em pé,
teria desmontado feito um castelinho de cartas cuja base foi desfalcada
após ouvi-lo falar aquilo.
- Ele me faz feliz – murmurei, franzindo levemente a testa ao pensar na alegria que sentia quando estava com Mica – O problema é que… Você também.
- Me desculpe por isso – ele pediu, um tanto irônico,
interpretando minha frase de uma maneira um tanto errada – Vou tentar te
magoar mais freqüentemente de hoje em diante. Quem sabe assim eu te
ajude a tomar a decisão certa que você tanto deseja.
- Não seja idiota – falei, sentindo a acidez de seu tom de voz
destruir o pouco de estabilidade que começara a se reconstruir em mim.
Por que ele estava sendo tão estúpido? Era compreensível que ele se
sentisse apreensivo sobre aquele assunto, mas eu estava no olho do
furacão e não estava distribuindo patadas!
- Não seja idiota você –
ele retrucou, e respirou fundo logo em seguida, provavelmente guardando
para si as palavras que realmente desejava dizer – Só me avise quando
decidir, está bem? Eu odiaria estar mal informado sobre esse assunto.
- Você provavelmente vai descobrir
isso sozinho – eu disse, sem emoção – Procure nos jornais pela notícia
de uma garota de 17 anos que morreu ao se atirar de um prédio e vai ter
sua resposta.
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