- Se você sequer pensar numa coisa
dessas, eu te mato com minhas próprias mãos antes que possa se suicidar
– ele rosnou, furioso diante de minha hipótese.
- Obrigada, vai adiantar meu trabalho –
rebati, seca. Eu estava totalmente desmotivada a continuar naquela luta,
já que sabia que não poderia vencê-la sem uma perda que eu não sabia se
suportaria ou sem um arrependimento irreversível. Ele respirou fundo
outra vez, provavelmente tentando não gritar comigo, e sua voz soou
controlada ao emanar do telefone de novo.
- Não precisa se sacrificar assim, Lua.
Se não consegue se decidir agora, deixe que o tempo decida por você.
Deixe que as coisas se encaminhem sozinhas. Confie em mim, e quando
menos esperar, vai tomar sua decisão espontaneamente.
Conforme falava pausadamente, Thur ia
adotando um tom de voz mais calmo e até um pouco otimista, e eu percebi
que meu coração seguia pelo mesmo caminho. Talvez eu devesse conversar
mais vezes com ele; além de suas palavras serem quase sempre
interessantes, sua voz me ajudava a pensar e a me acalmar. Pelo menos
por telefone. Suas habilidades vocais ao pé de meu ouvido eram outro
caso.
- Espero que você esteja certo – suspirei, sentindo menos vontade
de me suicidar. O que não significa que a sugestão tivesse sido
totalmente descartada.
- Eu também – ele murmurou, como se falasse consigo mesmo, e eu desejei poder ler seus olhos e seu rosto naquele momento.
- Acho melhor desligarmos – sussurrei, depois que o silêncio
voltou por alguns minutos, apesar de estar gostando do suave som de sua
respiração – Eu preciso colocar um pijama e tentar comer alguma coisa.
- Não me diga que está nua! – Thur sorriu, e o clima da conversa subitamente voltou a ser tolerável – Ou melhor, diga sim!
- Desculpe desapontá-lo, mas não, eu não estou nua – falei, rindo
um pouco, surpresa por seu interesse erótico incessante – A toalha
estragou seus planos.
- Ah, não me fale uma coisa dessas! – ele gemeu, torturado, e eu
ri mais – Me dá vontade de repetir as seis vezes da noite passada só de
pensar! E só não chegamos a dez porque sua mãe chegou, e a propósito,
vou mandar a conta de outro terno Armani pra sua casa muito em breve!
- Ah, vai sim, e eu te mando a conta da minha cama nova –
retruquei, tentando disfarçar meu sorriso divertido e anulando qualquer
tipo de reclamação dele - Boa noite, Thur.
- Sua cama está em perfeitas condições, assim como o meu terno – ele confessou, fazendo-me sorrir, vitoriosa - Boa noite, Lua.
- Ah, antes que eu me esqueça – murmurei, tímida – Obrigada por… Hm, você sabe. Ter conversado comigo.
- Eu que agradeço – ele sorriu, com sua voz derrete-gelo – Fique à
vontade pra me ligar quando quiser… Exercitar as palavras é algo que eu
deveria fazer com mais freqüência.
- Até que suas palavras são… Legais – falei, ouvindo-o rir logo em
seguida (e com razão, afinal, eu disse que as palavras dele eram legais) – Quer dizer, eu meio que… Gosto delas. Mas não espere que eu te ligue.
- Hm, deixe-me adivinhar… Vergonha, talvez? – Thur
chutou, e eu ri baixinho numa resposta afirmativa – Eu juro que tento
entender você, mas quanto mais perto de conseguir eu chego, mais confuso
eu fico. Alguém por acaso já te disse isso?
- Não – respondi, ainda sorrindo debilmente – Ninguém nunca me disse a maioria das coisas que você me diz.
Fiquei séria subitamente ao ouvir minhas próprias palavras
impensadas. Elas eram a pura verdade, mas talvez eu não devesse tê-las
dito. Não queria demonstrar nenhum tipo de sentimentalismo exagerado,
ainda mais estando na situação de indecisão em que eu estava. Ele
pareceu entender o significado de meu silêncio, e murmurou alguns
segundos depois:
- Eu disse pra você confiar em mim… Não disse?
Imediatamente, as palavras que ele me dissera há pouco tempo voltaram a ecoar em meus ouvidos. Confie em mim, e quando menos esperar, vai tomar sua decisão espontaneamente.
- Boa noite, Thur
– repeti, e desliguei logo em seguida, sem nem querer ouvir sua
resposta e de repente deixar que ele me confundisse mais ainda. Fiquei
encarando o teto por um tempo, desembaralhando minha mente, e sem
conseguir o menor sucesso, me levantei, fiz o que tinha que fazer e
voltei a me jogar na cama, dessa vez demorando um bom tempo para cair no
sono.
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