Encarei com veemência meu
reflexo no espelho, e esperei até que meu rosto se tornasse um pouco
menos assassino. Sem sucesso nenhum, apenas fiz uma de minhas
especialidades: fingi. Um sorrisinho cordial surgiu em meus lábios com
certo esforço, e apesar de meus olhos em brasa, concluí que estava
apresentável novamente. As pessoas teriam que se conformar com minha
sutil cara de psicopata.
Saí do banheiro, após mais alguns segundos de exercícios respiratórios, e voltei a me sentar no sofá, onde agora só havia Mica.
Alguém havia mudado de canal, e um noticiário entediante passava na TV.
Fingi prestar atenção no que o repórter dizia, e logo senti os olhos
ressentidos de Mica sobre mim devido à minha
grosseria de alguns minutos atrás. É claro que o ignorei totalmente, e
ele não levou muito mais que três segundos para deduzir isso; como se
lesse meus pensamentos, simplesmente levantou-se do sofá e foi conversar
com alguns amigos. Dali a cinco minutos ele já teria se esquecido de
meu pequeno deslize, se eu o conhecia bem.
Uma meia hora se passou, preenchida por conversas rápidas e
entediantes com alguns velhos conhecidos da faculdade. Quando já estava
começando a ficar impaciente com aquele bando de gente que não tinha
mais nada para fazer a não ser comer, beber e fazer barulho (fora o
fator atrapalhando minhas possibilidades de invadir o quarto do Mica e seqüestrar Roberta sem ser percebido) e estava considerando radicalmente a hipótese de ir para casa, recebi uma notícia um tanto quanto animadora.
- Ei, Aguiar
– Michael, um colega nosso da faculdade, chamou, quando finalmente
tomei coragem de me levantar do sofá para pegar mais uma cerveja – Todo
mundo tá indo jogar sinuca lá no salão de jogos. Quer vir com a gente? - Defina todo mundo –
pedi, fingindo que a possibilidade de esvaziar o apartamento não estava
tão distante da realidade para não parecer empolgado demais com aquela
informação.
- Todo mundo, literalmente – ele riu
em resposta, bêbado – Sabe como é, acabou a cerveja. A gente precisa de
alguma outra distração.
- Hm, sei – menti diante de suas afirmações sem nexo, forçando um
sorrisinho compreensivo quando na verdade eu queria gargalhar e mandar
todos irem à merda do salão de jogos o mais rápido possível – Acho que
eu não vou não, cara. Minha cabeça tá explodindo, eu não tô muito legal,
é melhor eu ir embora.
- Ih, tá perdendo o jeito, é? – Michael debochou, me dando uma cotovelada fraca – Você costumava ser o rei dos porres, Thur.
Perdendo o jeito? Eu acho que não. Pergunte pra sua mãe, ela saberá te responder melhor do que eu.
- Pois é – respondi simplesmente, ignorando toda a náusea que o
bafo de álcool daquele idiota estava me causando – Eu devo estar ficando
velho. Michael
deu uma risadinha alienada, e eu me aproveitei de sua falta de atenção
para escapar daquela conversa estúpida e pensar com clareza e rapidez no
que ia fazer. Se todos iriam ao salão de jogos, era pouco provável que Roberta quisesse acompanhá-los. E já que o aniversariante era Mica,
não havia muitas chances de que ele ficasse com ela ao invés de passar
algumas horas com os amigos. Ou seja, eu teria pelo menos algum tempo a
sós para resolver minhas pendências.
É claro, havia riscos, e não eram poucos. Mas pra quem estava
prestes a desistir de tudo, eu havia sido mais do que abençoado com um
pouco de sorte, e estava mais do que disposto a me arriscar.
Caminhei em direção ao hall de entrada do apartamento, onde os poucos convidados já se aglomeravam, e ao mesmo tempo, encontrei Mica voltando do corredor. Provavelmente, tinha ido avisar Roberta que estaria fora por algum tempo, mas logo voltaria. Pode deixar, eu cuido dela, pensei em dizer, mas obviamente ignorei tal impulso.
- Borges,
eu acho que já vou pra casa – falei, forjando um cansaço que se opunha
totalmente ao meu estado de humor – Acho que exagerei na bebida.
- Tudo bem, cara, pelo menos você veio e aproveitou um pouquinho –
ele concordou, pondo uma mão em meu ombro e me olhando com leve
preocupação – Tem certeza de que não precisa de uma carona?
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