Roberta o acompanhou com os olhos aflitos conforme ele se afastava, até que Mica
sumiu de vista. Ela manteve o rosto virado na direção da cozinha,
segurando firmemente a pequena bolsa vermelha de verniz que combinava
perfeitamente com suas unhas. Sim, eu tenho o péssimo e delicioso hábito
de observar cada pequeno detalhe dela. Posso estar me mordendo de
raiva, mas ainda sou fodidamente viciado naquela pirralha.
- Pode ir atrás dele – falei, fazendo-a pular levemente de susto e me encarar – Não é isso o que você sempre faz?
Roberta me fitou por alguns segundos, recuperando-se da surpresa
por meu contato e ao mesmo tempo absorvendo e tentando formular alguma
resposta para minhas palavras. Sem conseguir nenhum de seus dois
objetivos, ela simplesmente desviou o olhar do meu e saiu de perto,
tomando a mesma direção que Mica. Observei-a
caminhar rapidamente, enfeitiçado pelo tecido esvoaçante de seu curto
vestido preto, e um detalhe no qual eu não havia reparado antes me fez
sorrir pervertidamente.
Sua roupa deixava exposta quase que toda a extensão de suas
costas. Ou seja, ela não estava usando sutiã. Saber que uma peça íntima
estava faltando ali era, confesso, bastante excitante.
E só pra relembrar, a filha da puta estava de salto.
Ah, como eu queria transar com ela hoje.
Mordi meu lábio inferior, respirando fundo e desviando meus olhos
dela. Seria constrangedor demais até para mim ter uma ereção no meio
daquele bando de gente, mesmo que a culpada fosse capaz de me tirar dos
eixos em qualquer lugar, a qualquer hora, com qualquer roupa. Percebi
que alguém havia ligado a TV, e mantive meus olhos fixos na tela, sem
realmente absorver o que estava sendo transmitido. Acho que nem milhares
de mulheres gostosas e peladas se esfregando prenderiam minha atenção
àquele televisor no momento, mas eu juro que me esforcei para prestar
atenção por pelo menos dois minutos.
- Vem cá, Roberta, vamos ficar aqui na sala – pude ouvir a voz de Mica dizer, vinda da cozinha e se aproximando cada vez mais – Aproveita e traz mais uma cerveja pro Thur.
Uma cerveja? Pra mim? Puxa, que gentileza! Micael Borges,
eu te amo. Se não fosse tão possessivo sobre a sua namorada, te
chamaria pra um ménage. Mas que pena, eu sou. E te ver nu não é algo que
eu queira.
Não movi um músculo, apenas esperei até que Mica voltasse a se sentar ao meu lado no sofá, deixando um lugar vago para Roberta de seu outro lado. Bastante egoísta da parte dele, eu achei.
- Fala sério, você tá assistindo TV no meu aniversário? Pensei que
você estivesse aqui por mim! – ele brincou, e quando me virei para
retrucar, vi Roberta se aproximando com duas
garrafas de cerveja e uma expressão levemente pálida, como a de quem
deseja vomitar. Ela realmente estava tão mal com a minha presença? Quase
me dava pena. Eu disse quase, só pra ressaltar.
- Nossa, cara – falei, erguendo uma sobrancelha – Isso soou muito gay.
- É que hoje minha homossexualidade tá aflorada –
Mica
gemeu, passando os braços ao redor de meu pescoço e deitando sua cabeça
em meu ombro. Era em situações como essa que eu confirmava minha teoria
de que Mica fazia o tipo passivo.
- Argh, sai daqui, sua bicha – grunhi, segurando seus pulsos e
tentando tirá-lo de cima de mim, fazendo-o rir – Vai agarrar sua
namoradinha, vai.
De repente o clima ficou tenso.
Mica parou de rir e me olhou com certa censura, e Roberta,
que finalmente havia chegado ao sofá, parou de pé na nossa frente e me
encarou por poucos segundos, com o olhar magoado.
- Que é? Só porque eu falei no diminutivo? – perguntei, levemente
sarcástico, me aproveitando daquela tensão para atingi-la ainda mais - A
menina mal saiu das fraldas e você quer que eu a chame de que?
Namoradona?
-
Thur – Mica falou, com um tom de voz grave e repreensivo – Hoje não, por favor.
Revirei os olhos, voltando-os para a TV, mas infelizmente o corpo de
Roberta
me impedia de ver boa parte da tela. Ela me estendeu uma garrafa de
cerveja e eu apenas a arranquei de sua mão sem nem agradecer, e logo ela
se sentou na outra ponta do sofá, rapidamente sendo envolvida por um
dos braços de Mica. Que bosta, com tantos lugares mais interessantes para ficar, eles realmente pretendiam sentar justo do meu lado?
- Eu acho que vou me deitar um pouco – ouvi
Roberta
dizer baixinho, e sua voz mais fina que o habitual me causou uma
pontada de remorso que eu logo destruí – Estou cansada, dormi mal na
noite passada.
Chupa,
Borges. Ninguém manda fazer uma festa numa sexta-feira de provas escolares, seu imbecil.
- Tem certeza de que é só isso, amor? –
Mica murmurou, encurvando-se sobre ela, e meu estômago revirou mais rápido ainda de ciúmes – Está sentindo mais alguma coisa?
- Eu estou bem, juro – ela respondeu, carinhosa – Só preciso descansar um pouco. Enquanto isso, aproveite sua festa.
- Como, se você não vai estar aqui pra aproveitar comigo? – ele
perguntou, e a força em meus punhos aumentou tanto que minhas pequenas
unhas ameaçaram cortar a pele das palmas de minhas mãos – Mas tudo bem,
vá se deitar um pouco na minha cama. Quero que você fique bem para
podermos aproveitar quando estivermos sozinhos.
Respirei lenta e profundamente, tentando não deixar o grito de
ódio em minha garganta escapar, e me levantei devagar para não deixar
meus instintos prevalecerem e me jogar sobreMica, pronto para torturá-lo
até a morte. Caminhei até o banheiro, já com uma certa pressa, e me
tranquei lá, sentindo meu estômago embrulhado.
Eles iam passar a noite juntos. Que maravilha. Quer dizer que eu
não teria nem a mínima oportunidade de levá-la para casa (a minha,
claro), e que ele a teria toda para si, de unhas vermelhas e com aqueles
saltos malditos. Parecia que meu cérebro estava inflando a cada vez que
esses fatos ecoavam em minha mente, e estava perigosamente perto de
explodir com violência.
Joguei um pouco de água no rosto, respirando fundo, e senti um
ódio que não parecia caber dentro de mim se espalhar por todas as minhas
células. Por que as coisas tinham que ser assim? Por que eu não podia
simplesmente ser o que
Mica era para ela? Por
que eu não podia ser o dono da cama onde ela dormia por algumas noites, o
namorado que podia explorar aquele corpo sem limites?
Nenhum comentário:
Postar um comentário