- Fala, Aguiar! – Mica
exclamou, assim que surgi no primeiro andar de seu prédio, com sua
habitual overdose de alegria. Eu também estaria super alegre com a
mulher que ele tinha ao lado dele. Adoro meu senso de humor mórbido.
- Parabéns, Micael
– sorri, abraçando-o brevemente e dando tapinhas em suas costas – Não
acredito que mais um ano se passou e eu ainda não te dei um pé na bunda.
- Valeu, cara – ele riu, afastando-se e me dando passagem para entrar no apartamento - Você sabe que me ama, gatinho.
- Fala baixo, vão nos descobrir – fingi um sussurro, fazendo-o
gargalhar enquanto eu observava as pessoas que conversavam na sala.
Alguns colegas da faculdade, poucos de profissão, mas não passavam de
umas vinte pessoas.
- Fica à vontade, cara, vou buscar uma cerveja pra você – Mica disse, indo até a cozinha e me deixando na sala. Pensei em segui-lo, me perguntando se Roberta
estaria por lá, mas resolvi cumprimentar alguns amigos da faculdade e
me sentar confortavelmente no sofá. Eu queria estar preparado para vê-la
pela primeira vez após um mês de distância, e não queria parecer
ansioso.
- E aí, como você tá? – Mica perguntou alguns minutos depois, me entregando uma cerveja e atirando-se ao meu lado – Parece melhor da crise de enxaqueca.
É, eu sei, dei uma desculpa esfarrapada pra minha reação a um primeiro fora. Mas eu não podia simplesmente dizer pois é, Borges, eu fiquei meio deprimido porque sua namorada resolveu ficar contigo e não comigo se ainda queria deixar as coisas como estavam: em segredo.
- Eu estou mesmo – respondi, dando um
grande gole na cerveja para não dar mais um de meus sorrisos maldosos ao
pensar no motivo de minha melhora – Acho que precisava de umas boas
noites de sono, e alguns analgésicos me ajudaram.
O que foi? Estou mentindo de novo? Eu sei. Não quero ir pro céu mesmo, gosto demais de sexo e álcool pra isso.
- Que bom, de verdade – ele assentiu, me dando dois tapinhas no ombro – Tava começando a ficar preocupado contigo.
E eu tô começando a ficar preocupado com a tua namorada. Cadê ela?
Já eram quase dez e meia, ou seja, um pouco tarde para se chegar numa
festa marcada para as oito, não acha?
- Borges, interfone! – uma voz masculina gritou da cozinha, em meio ao falatório dos outros presentes – Uma tal de Roberta! É pra mandar subir?
Duas palavras: oi, Messi.
- É! – Mica respondeu, e logo depois se dirigiu a mim – Já volto.
Assenti de leve, observando-o correr até a porta, e dei mais um gole em minha Heineken. Em menos de quinze segundos, Roberta surgiu à porta, e os braços de Mica
a envolveram tão rapidamente que eu mal pude vê-la. Tudo que ficou
visível foram suas mãos, agarrando os cabelos dele e enterrando suas
unhas vermelhas em sua nuca, e seus pés, suspensos no ar devido ao
abraço de Mica. E um detalhe que passaria
despercebido por mim, se não fosse ela a garota em questão, chamou minha
atenção e, confesso, me assustou pra caralho.
Os sapatos pretos dela eram exatamente iguais aos que ela usava quando sonhei com ela no baile de primavera.
Merda. Só porque eu adoro fazer sexo com
mulheres de salto. Eu podia ser um cafajeste, mas ela não ficava muito
atrás me provocando daquele jeito.
Mica a ergueu ainda mais no ar, e o rosto dela se tornou visível sobre o ombro musculoso dele. Roberta
aproximou sua boca de seu ouvido e murmurou algumas palavras que, pelo
que minha leitura labial me permitiu identificar, eram Parabéns, meu amor, eu te amo muito. Ele
provavelmente respondeu à altura, porque o sorriso nos lábios rosados
dela aumentou. Assim como minhas mãos se fecharam em punhos, quase
esmagando a garrafa de cerveja entre meus dedos.
Desviei o olhar, tentando sufocar o
grito de ódio que se formou em minha garganta. Engoli todo o resto do
conteúdo da garrafa de uma só vez, esfriando a raiva que parecia queimar
minhas entranhas, e quando voltei a encará-los, Mica
a havia abraçado pela cintura com um de seus braços e a apresentava
para um grupo de amigos. Então eles haviam se tornado públicos? Que
bonitinho. Eu bem que podia ser um belo filho da puta e contar tudo pra
mãe dela, mas acho que isso dificultaria de certa forma minhas chances
de tê-la para mim.
Então eu apenas ia assistir àquela barbaridade sem mover um músculo?
Bem… Não exatamente. Eu tinha meus meios de destruir aquele conto de fadas.
Minha mente trabalhava a todo vapor conforme ele a apresentava a
praticamente todas as pessoas presentes, e meus olhos os seguiam com
discreto interesse. Os sorrisos ternos queRoberta dava a cada uma delas
me fez esquecer completamente, por um segundo, que estava bravo. Eu a
queria tanto, meu Deus! Por que ela não conseguia simplesmente entender
isso? Essa incompreensão queimava com tanta força em minha garganta que
eu me sentia prestes a gritar tudo que se passava em minha cabeça, pra
que todos ouvissem de uma vez que ela era minha e de mais ninguém.
- E esse aqui você já conhece – a voz de
Mica,
perigosamente próxima, me acordou do breve transe no qual havia
mergulhado sem querer, com um leve susto. Olhei para cima e o vi parado à
minha frente, com a mão de Roberta na sua, e
logo em seguida, desviei meu olhar até encontrar o dela, extremamente
contido e assustado. Como uma presa frente a frente com seu predador.
- Oi,
Messi – sorri após alguns segundos
de silêncio, e a malícia da vingança contornava visivelmente meus
lábios. Eu me sentia absurdamente descarado, e não tinha a menor
intenção de mudar essa situação, já que Mica era um tapado e não repararia mesmo.
- Oi – ela murmurou, abaixando seu olhar do meu por um segundo,
sem conseguir agüentar a carga de raiva que viu em minhas íris.
Coitadinha. Só vai ficar pior.
- Senta aí,
Roberta, eu vou buscar uma cerveja pra você e já volto – Mica disse, e sem dar tempo para que ela se manifestasse, ele correu até a cozinha, deixando-a sozinha comigo. Ops. Errou feio, Borges.
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